Teatrinhos

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

António Revez

Eu sei que receber cerca de 130 mil euros de subsídios (do Ministério da Cultura e da Câmara Municipal de Beja) para fazer uma ou outra produção cósmico-sinergético-psicadélico-transcendental e duas ou três reposições por ano deixa a dona Gisela, patroa da Arte Pública, com muito dinheiro e muito tempo livre para se entregar a prazeres entorpecedores. Só assim se explica a figura patética a que a senhora se expôs na edição do “Correio Alentejo” de 21 de Janeiro. Passo a explicar: em jeito de “Direito de Resposta” a dona Gisela atira-se a mim de forma inflamada e alvoraçada, com a impertinência própria e desculpável da perturbação, a mimar-me de estalinista, a sugerir que eu seja incinerado na praça pública, a pretender encerrar o “Correio Alentejo”, ferido de credibilidade, porque eu teria feito, em crónica pretérita publicada no “Correio Alentejo”, um “balanço cultural do ano” onde excluía a putativa companhia Arte Pública e glorificava os Lendias d´Encantar, grupo de teatro a que o meu irmão pertence, e que só por isso eu conseguia, misericordiosamente, que me encenassem os textos. Pois bem, um pouco de atenção e sobriedade livraria a dona Gisela de se atolar no ridículo! É que a crónica a que a dona Gisela alude e lhe ocupa metade da “resposta” desvairada, não só não foi publicada no “Correio Alentejo”, como não foi escrita por mim! É uma crónica da autoria do meu irmão, lida com a sua voz na Rádio Pax e publicada na mesma rádio em 13/12/2010. Crónica cuja prosa e conteúdo o identificam muito bem.
Mas pior do que responsabilizar estapafurdiamente o jornal “Correio Alentejo” e a mim por uma crónica que o jornal não publicou e eu não escrevi, é considerar que a mesma violava a ética, de que a prima-dona Gisela é paladino imaculado, pelo suposto “conflito de interesses” em que incorreria pelo facto de elogiar um grupo onde o meu irmão é actor, e tirar proveito oportunista dessa condição. Pois bem. Que dizer então da virtuosa e honorável Gisela que deu, pela mão da Arte Pública, e ao longo dos anos, emprego ou trabalho a vários companheiros seus, aos seus filhos e às namoradas destes?
Mas acontece que a dona Gisela se estendeu novamente ao comprido. É que das vinte peças que escrevi até hoje, e todas já levadas à cena, só quatro delas é que foram encenadas pelos Lendias d´Encantar. E mais, a última dessas peças, “Duas irmãs”, ainda em exibição, e a que a dona Gisela faz pérfida referência, foi encomendada há uns três ou quatro meses pela direcção dos Lendias d´Encantar. Direcção a que o meu irmão já não pertence há um ano, sendo desde essa altura apenas actor e encenador do grupo. E porque a insinuação ficou, e eu conheço a ética da dona Gisela doutros carnavais, devo lembrá-la que antes de qualquer colaboração com os Lendias d´Encantar eu já tinha duas peças minhas premiadas pelo Ministério da Cultura – Instituto Português do Livro e das Bibliotecas, e publicadas ao abrigo desse apoio. E que para além dos Lendias d´Encantar já encenaram textos meus os grupos: Jodicus, Gaita, Pezinhos de Lã, Grupo de Teatro Sobral de Ceira (Coimbra), Associação de Cultura Canto Firme de Tomar, e Ditirambus – Associação Cultural e Pesquisa Teatral (Lisboa), que vai estrear a minha peça “O frio que faz na cama”, no próximo dia 25 de Fevereiro no teatro “Os Pimpões”, nas Caldas da Rainha. Portanto, dona Gisela, engula em seco e dê melhor uso ao seu entediante tempo livre.

Aproveito esta ocasião para responder ao amabilíssimo e “optimista” (que bom, mais um optimista convicto) artigo de Dário Brissos, que também resolve interpelar-me na mesma edição do “Correio Alentejo”. Eu não sei a que corresponde um “ataque pessoal” lá no mundo de Dário Brissos, mas no meu não é de certeza uma “carta aberta” sincera e construtiva e onde eu desejo “sorte e sucesso” ao seu destinatário. Mas num ponto tem razão o optimista Dário Brissos, na necessidade de “analisar o destino das verbas públicas”. Por isso mesmo recomendei ao vereador da cultura que vá ver os espectáculos-delírios da Arte Pública e tire as suas conclusões, tal como certamente ele foi ver a última produção dos Lendias d´Encantar, e como deverá ver os trabalhos dos Jodicus e da Homlet, e, coisa que o optimista Dário Brissos não referiu (talvez porque não concorde), reforçar o apoio a estes grupos.

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