Solidariedade e Sobriedade

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Teresa Chaves

presidente da Cáritas de Teja

Acabámos de celebrar a festa da Páscoa, em que os cristãos assinalam um acontecimento de amor infinito. O próprio Deus feito homem, doa-se por amor, em favor de toda a humanidade. Páscoa significa passagem. Uma passagem que convida a libertarmo-nos de tudo o que está velho em nós e a renovarmo-nos. O ser humano ao ser criado foi-lhe depositado uma semente de amor, que deverá germinar e crescer ao longo da sua vida O homem e a mulher têm pois uma necessidade estrutural de amar e serem amados. Quando isso não acontece, estabelece-se um profundo desequilíbrio. A falta de amor é a causa das divisões, das guerras, dos egoísmos, da ganância, do fechar-se sobre si próprio. A falta de amor leva as pessoas a procurar uma compensação de âmbito material. Este facto é muito evidente no nosso mundo actual. Assistimos a uma sobrevalorização de tudo o que é material, provocando com isso, qual círculo vicioso, uma deterioração nos relacionamentos uns com os outros. Ao fecharmo-nos sobre nós próprios perdemos a capacidade de olhar para o outro, de nos apercebermos das suas necessidades. Tornamo-nos áridos e ressequidos interiormente. Tornamo-nos vazios. Paradoxalmente, assistimos a uma profunda sede de espiritualidade. É como que uma pequena luz a brilhar no meio de uma profunda escuridão. Isso acontece porque a semente de amor semeada no nosso coração ainda consegue sobreviver apesar do seu não desenvolvimento por se encontrar sufocada pelo materialismo. O ser humano é um ser relacional e como tal é chamado, a partir de dentro, à comunhão com os outros e à doação de si mesmo aos outros, numa lógica de solidariedade. O ser humano é um ser “com” e um ser “para”e não se consegue encontrar se não desenvolver essas suas características. Neste momento difícil que Portugal e os portugueses estão a viver, fruto de uma mentalidade distorcida, de ganância de alguns em detrimento de muitos, somos chamados a mudar mentalidades e estilos de vida. Necessitamos reencontrar estilos de vida sóbrios. A sobriedade e a solidariedade estão intrinsecamente interligadas. A sobriedade abre caminho para a solidariedade, afastando exageros, excessos e tudo o que egoisticamente fecha o Homem, centrando-o e amarrando-o a si mesmo. Deste modo, a solidariedade pode esforçar-se por fazer crescer novos compromissos de se encarregar do outro, de partilhar com o outro. A solidariedade provoca uma renovada responsabilidade, a responsabilidade compartilhada, em que todos nos sentimos responsáveis por todos e por cada um numa lógica de fraternidade. A sobriedade não traz consequências somente de âmbito individual ou comunitário, mas estende-se ao nível global pois refere-se ao uso equilibrado dos bens para um autêntico desenvolvimento sustentável da humanidade inteira, para esta geração e as vindouras.

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