São factos, senhores!

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Hugo Lança Silva

professor do ensino superior

Tenho sido um dos críticos do actual mandato da Câmara Municipal de Beja (CMB)! Não o faço por complexos ideológicos, por dor de cotovelo mal resolvida ou seguidismo partidário: critico e defendo a mudança porque Beja precisa e merece mais e melhor! Mas sempre entendi que a divergência é saudável e a crítica não pode ser cega: e foi nesse sentido que nas páginas deste jornal, em Outubro do passado ano, elogiei dois aspectos que me pareciam as marcas mais positivas do actual presidente da Câmara: “restabelecer alguma ordem na selvajaria financeira que encontrou quando tomou posse, conseguindo equilibrar as depauperadas contas públicas” e a “inequívoca tentativa de moralizar algum clientelismo municipal”.
Meses depois, quando as eleições se aproximam, sinto-me obrigado a fazer um mea culpa, a assumir o meu erro de análise! Mais que conquistar o direito a fazer esta crítica, pelo que antes deixei escrito, sinto ter a obrigação moral de o fazer! É com tristeza que hoje constato que o excelente trabalho de recuperação das contas municipais estragou-se com despesismo eleitoral, em iniciativas como a comemoração do Dia da Cidade – que correu muito bem – e o Festival da Juventude – que correu muito mal -, sendo que nestas festas com poucos foguetes se gastou em pleno ano de profunda crise internacional e nacional, 56 mil contos, subtraídos ao carenciado erário municipal!
Mas muito mais pernicioso e vergonhoso que os montantes gastos em festarolas para eleitor ver, é o inqualificável facto de a autarquia se preparar para abrir OITENTA E NOVE lugares em ano de eleições. Não vou gastar o tempo do leitor a comentar a forma com a notícia surge na Imprensa; apesar de achar inaceitável que um jornalista (por quem nutro estima pessoal) aceite assinar um documento panfletário onde se procura deslocar as atenções da vergonha eleitoralista para o grave flagelo do desemprego!
Vamos a essa coisa aborrecida que são os factos! A CMB prepara-se para no fim de ciclo, aumentar em cerca 15% o seu número de funcionários! O que justifica que a edilidade sinta esta premência repentina de tantas pessoas novas? Porque estranha razão apenas no fim de quatro longos anos de mandato e de trinta e quatro de hegemonia comunista, se percebeu que faltavam tantos recursos humanos para a CMB? Ainda por cima uma autarquia surda a críticas e que em momento algum foi capaz de assumir falhas no seu trabalho?
Mais. Se pretensamente o concurso foi para desempregados, quer dizer que os actuais colaboradores da Câmara Municipal de Beja não podem concorrer? Este concurso exclui quem está a recibos verdes ou contratos de trabalho por tempo determinado?
Importa sublinhar que aumentar em mais de 15% a massa salarial da CMB, pode hipotecar o futuro da autarquia, coarctando os projectos do próximo executivo. Pelo que se exige não apenas cuidado e bom senso, tendo de as contratações terem por base critérios sérios e rigorosos: para quem conhece a realidade da CMB resulta estranho que seja tão elevado o número de assistentes operacionais, quando seria de muito bom senso e de racionalidade económica procurar dar formação aos actuais trabalhadores, reconverto-os para funções onde se sentissem mais habilitados ou recorrer a excedentários!
Não pretendo atacar a honorabilidade de ninguém, mas não tem bom olfacto que para o Gabinete de Comunicação se exija alguém com formação académica em Sociologia e não, como pareceria lógico e óbvio, alguém formado em jornalismo ou relações públicas! Mas, dizia e mantenho, quero muito acreditar que o concurso vai ter regras limpas e permitir a entrada dos mais capazes, independentemente da sua filiação partidária ou parentesco! E se essa for a intenção de quem promove o concurso, seria interessante que o mesmo fosse realizado por uma entidade externa e independente, nomeadamente uma empresa especializada em recursos humanos. Porque tal como à mulher de César…
Se das palavras hoje aqui escritas, bem como o que outros já disseram, se conseguir que o concurso vai ser mais transparente, valorizando o mérito e a competência, porquanto a CMB está hoje ciente de que a sociedade civil vai escrutinar os resultados e analisar a lista dos admitidos, então, já valeu muito a pena escrever estas palavras…

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