Sindicato dos desemprecários

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Margarida Janeiro

jornalista

Conheço pessoas que exclamam amiúde, e a propósito de quase tudo e quase nada, “ai isto tem-me dado tanto que pensar!”, “ai isto tem-me dado tanto que fazer!”. É verdade! A mim também. O assunto (recorrente por sinal) desta crónica é um isto desses, uma coisa dessas. É uma carrada de fezes. É mesmo uma merda! Sim o desemprego é uma m…..!
Só quem nunca o viveu pode falar dele e sobre ele de forma leviana e nisso pululam por aí senhoras e senhores que com ele enchem a boca em campanhas eleitorais e eleitoralistas.
Não ter emprego é um drama pessoal que nos diminui aos olhos dos outros. É um golpe na auto-estima, na visão e na imagem que temos de nós próprios. É a crença que vai minando que não servimos para servir. É um corte nas perspectivas, na projecção do futuro. Se quisermos uma paralisação na capacidade construtiva de cada um. Mas não ter emprego é também um drama familiar. Uma aflição pela impotência face ao problema, uma sobrecarga faça às ajudas necessárias. E não ter emprego é claro, ainda, um drama social. Como lidar com os desempregados? Como sustentá-los? Como ocupá-los? Os desempregados são já muitos. Saem caro. Preocupam, pelo menos, por isso.
Mas a verdade é que os desempregados portugueses não sobrevivem com 335,38 euros que a Segurança Social lhes atribui. Alguns perdem as casas, outros não chegam a ganhá-las. Uns perdem os carros, outros a possibilidade de ter filhos, outros de estudar, outros ainda de vestir e calçar e outros – minhas senhoras e meus senhores que enchem a boca – de comer!
O desemprego é um flagelo grande e grave que devia dar-nos que pensar, que devia dar-nos que fazer! Como exclamam, aliás, amiúde algumas pessoas que eu conheço! Sobretudo aos que empregados estão!
O Sindicato dos Desemprecários que orgulhosamente fundei nasce precisamente da necessidade de dar resposta a estas questões pertinentes que o desemprego se nos coloca: Quem te faz o currículo? Quem te prepara para uma entrevista? Quem te leva a reivindicar o teu direito ao subsídio de almoço? Às horas extras? Quem denuncia a tua situação de ilegalidade laboral? Quem pode fazer contigo propostas de alteração legislativa para a melhoria dos direitos laborais e sociais? Quem fará a articulação com os sindicatos e outras entidades? Quem promoverá acções públicas ou de formação para o esclarecimento sobre os direitos existentes no emprego/desemprego e na precariedade? Quem estabelecerá protocolos com instituições que forneçam refeições gratuitas?
Quem? O Sindicato dos Desemprecários.
Sei que fazem falta em Portugal instituições como esta. A dignidade é um bem que não tem preço. A solidariedade também não!

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