Senhor, estou farto!

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Rui Sousa Santos

médico

<i>“…E poderíamos igualmente falar do <b>acesso aos cuidados continuados de saúde, de que todos os idosos necessitam e cujas dificuldades na marcação de consultas se tornam cada vez maiores</b>, bem como as distâncias entre os domicílios e os locais de consulta são também maiores.
O acesso aos cuidados continuados de saúde estão, de uma forma geral, mais difíceis, se tivermos em linha de conta as distâncias, o encerramento dos Serviços de Atendimento Permanente e a difícil mobilidade dos idosos.”</i>

Rodeia Machado
in Políticas de Saúde
“Correio Alentejo” n.º92, 18 de Janeiro de 2008

O problema já não é só um problema técnico. Foi transformado num problema político, muito também por inépcia comunicacional na transmissão dos porquês e do que se pretende com a reforma das urgências. E o resultado é um aparente caos, onde excelentes razões são obrigadas a ombrear com a mais absoluta falta de vergonha, com a absoluta ausência de ética política, com a mais desbragada demagogia, com uma arrogância que rima continuadamente com manifesta ignorância e, acima de tudo, com um imediatismo no cavalgar de uma onda política que roça a inconsciência e que poderá ter um preço elevado a pagar no futuro. A grande questão é esta: durante anos e por diferentes razões, a menor das quais não terá sido a incapacidade política de alterar o status quo (que, note-se, convinha a muito boa gente à esquerda e à direita do espectro político), vendeu-se gato por lebre em termos de política de urgência/emergência. Abriram-se SAP’s por esse país fora sem qualquer critério, a maioria das vezes sem outros recursos que não os humanos, as ambulâncias passaram a levar a maioria dos doentes e acidentados ao SAP e o profissional de saúde, qual sinaleiro, resolvia algumas coisas e encaminhava muitas para o serviço de urgência hospitalar mais próximo. O cidadão contribuinte em verdadeira situação de urgência/emergência, por acidente ou por doença, passou a ser a grande vítima do sistema, sendo obrigatoriamente transferido de Pilatos para Herodes em vez de ser imediatamente evacuado para um serviço de urgência, com inevitáveis demoras que, muitas vezes, constituíram a fronteira que nunca devia ser ultrapassada. Ao mesmo tempo, o sistema convinha a muito bom português, que, com a conhecida capacidade de adaptação às circunstâncias mais adversas, passou a ver no SAP a verdadeira loja de conveniência da saúde e a utilizá-la como tal. Aquilo que deveria, também, constituir uma prática cívica, a relação com o médico de família, a normal utilização do conjunto de potencialidades de um centro de saúde, passou, em muitos casos, a ser a excepção, porque demorava mais, consumia tempo e era mais incómoda em termos de horários. Claro que o SNS tem culpas nisto tudo. Claro que em muitos sítios a organização dos serviços estava feita sobretudo segundo as conveniências dos profissionais e muito pouco segundo a conveniência dos utilizadores dos serviços. Mas mais claro é que quanto mais SAP’s houvesse menos consultas cada médico de família poderia fazer em cada semana de trabalho, uma vez que, a menos que tenha o dom da ubiquidade, é impossível a cada um fazer consulta e estar de serviço no SAP da zona (ou de outra área,,,) ao mesmo tempo. Avançou-se com o início da Reforma dos Cuidados de Saúde Primários, com a criação das unidades de saúde familiar, as famosas USF’s. Do mesmo modo, agarrou-se o problema da rede de urgências como devia ser. Concluiu-se que a maioria dos SAP’s de urgência nem o nome tinha. Procurou-se a reorganização dos serviços, entendeu-se, finalmente, a importância da rede de emergência pré-hospitalar. O tempo de acesso a cuidados urgentes passou a ser também critério de elegibilidade, compatibilizado com novas alternativas de evacuação tripuladas por profissionais com a devida qualificação. Em qualquer outro país isto seria entendido. Em Portugal não, que, politicamente, não dá jeito entender: toca a puxar o meu povo para a rua, que vai morrer gente. E, como a lei de Murphy existe, as coisas correm mesmo mal quando podem correr mal. A criança da Anadia morreu (muito provavelmente com um síndroma da morte súbita do lactente, que nada tem a ver com os meios de socorro), o sistema de emergência pré-hospitalar funcionou bem (é o próprio pai da criança que o afirma!) e o que é passado para a comunicação social é o pretenso sentimento de impotência dos profissionais do Hospital da Anadia, que se teriam cómoda e impotentemente debruçado nas janelas do hospital, assistindo às tentativas de reanimação/ressuscitação que a equipa da VMER desencadeou, como era seu dever. Mas a ninguém passou pela cabeça perguntar quantos dos profissionais daquela instituição hospitalar têm efectiva formação em suporte avançado de vida? Quantos dos médicos não pertencentes ao hospital que prestavam serviço naquele SAP (porque era um SAP e não um serviço de urgência!) têm essa formação? O que é que nos poderiam/saberiam fazer se, porventura, nos encontrássemos numa situação de risco de vida, senão evacuar-nos para o SU hospitalar mais próximo?
Ninguém quer ver isto? É politicamente mais rentável, para o senhor presidente da Câmara, dizer as enormidades que diz? Pensa o sr. Jerónimo de Sousa que agudiza o protesto das amplas massas indo lá fazer a figura que fez com o discurso dos coitadinhos? Vá lá que o dr. Menezes se lembrou que é licenciado em medicina e pediatra e que demagogia a mais poderia fazer o feitiço voltar-se contra o feiticeiro. O dr. Portas é contra o economicismo e não tem, pelos vistos, no partido dele, quem lhe explique que isto não tem rigorosamente nada a ver com economicismo.

O problema é político e como tal, neste momento, tem de ser trabalhado. Mas como arrogância rima frequentemente com ignorância, sublinho o exemplo acima ilustrado na citação em epígrafe. O que é que a continuidade de cuidados, de que, felizmente, muitos idosos não necessitam porque se mantêm autónomos, tem a ver com dificuldades na marcação de consultas? Antes de dizer é preciso saber o que se diz. Se não há esse cuidado tudo se torna mais claro.

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