Selecção de futebol ou feira de vaidades?

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

António Revez

Diria que o atraso civilizacional de um país é directamente proporcional à intensidade da histeria colectiva que se cria em torno da selecção nacional de futebol. Nesse aspecto, como em muitos outros, Portugal é de um terceiro-mundismo agoniante. Há países cujo orgulho nacional se evidencia no génio dos seus filósofos e cientistas, ou na importância da sua indústria, ou no prestígio da sua diplomacia, ou no desenvolvimento sustentado e harmonioso das suas cidades, ou no crescimento consolidado da sua economia, ou na protecção do seu património cultural e natural. E há países, como Portugal, em que o orgulho pátrio do povinho se esgota nas biqueiradas, ofensas aos árbitros, encenações teatrais, fintas e aventuras fatalistas de um bando de mercenários, vaidosos e vedetistas, que envergam a “camisola das quinas” e que desavergonhadamente nos tentam fazer crer, entre declarações públicas e privadas afectadas, que representam Portugal. E o povo, magneticamente rendido, sente-se de tal modo representado, tão identificado, que é quase como se tivesse ele próprio a promover a sua carreira futebolística, a ganhar prémios de jogo milionários, a usufruir de condições principescas, a renegociar contratos, a combinar transferências e propostas publicitárias com os seus empresários e agentes, a passear arrogância e triunfalismo, a ensaiar novos penteados amaricados, ou seja, a participar, neste caso, no Euro 2008, onde a questão do futebol no seu sentido mais arcaico, isto é, o prazer de jogar à bola, marcar golos e abraçar os companheiros como se um golo fosse a maior felicidade do mundo, parece uma melancólica miragem…
O futebol foi-se transformando pouco a pouco numa indústria obscena onde grassa a corrupção, o corrupio de influências, a lavagem de dinheiro, o fanatismo das claques, a tirania do marketing e da publicidade, e a prosperidade de uma “máfia” que envolve políticos, patrocinadores, investidores, dirigentes desportivos, proprietários de televisões e jornais, e empresários de jogadores. Esta constelação de interesses, com o beneplácito de um público ferozmente consumidor, hipertrofiou ao absurdo o valor comercial dos jogadores e também proporcionou o aparecimento de alguns fenómenos bem patéticos como seja a “futebologia”, uma nova disciplina científica onde pontificam comentadores e jornalistas desportivos, mas também advogados, pasteleiros e arrumadores de carros, todos capacitados na mais democrática ciência, plena de expressões esotéricas como “transacções na linha média”, “triangulações”, “desenvolver automatismos”, “provocar desequilíbrios”, “força anímica”, “futebol directo”, “atitude cínica”, “cruzamentos tensos”, etc.
Eu não me revejo, não me sinto identificado, nem representado pela selecção do senhor Scolari, pelos seus métodos e escolhas, nem pela postura tacticamente promocional e futebolisticamente negligente da maior parte dos jogadores seleccionados. Nem me condoem as explicações psicanalíticas para a apagadíssima prestação do “melhor jogador do mundo”, como se o rapaz tivesse ficado muito perturbado e confuso com a possibilidade de ganhar mais milhão ou menos milhão de euros em função de uma hipotética transferência de clube. E muito menos aprovo ou sequer consigo conciliar-me com o frenesim mediático e social que praticamente paralisou o país na véspera e durante o Euro 2008, como já havia acontecido no Euro 2004. É verdade que estamos mergulhados numa profunda crise, é verdade que o fado é cada vez mais um gosto elitista, é verdade que Fátima já perdeu fulgor mitológico; então, resta-nos esta droga colectiva do futebol, dos clubes e da selecção, onde depositamos as nossas esperanças, limpamos as nossas frustrações, sublimamos os nossos complexos de inferioridade e de superioridade, e sinalizamos o nosso folclórico patriotismo, tão ténue e tão efémero, que não sobreviveu aos “quartos de final”…
Jovens e velhos, homens e mulheres, ricos e pobres, muitos não percebendo um boi do que seja o futebol e a sua arte, sentem-se os maiores portugueses de sempre durante umas semanas, atingem os verdadeiros orgasmos com os golos da Selecção, obtêm as mais merecidas tareias domésticas com as derrotas lusas, põem lençóis na cama com as cores de Portugal, esquecem-se dos putos abandonados nos largos porque estão a discutir as substituições em animadas reuniões de famílias e amigos, metem férias de sofá e televisor porque os combustíveis não param de aumentar, e os políticos do burgo torcem como devotos para que cheguemos à final e vençamos o campeonato, porque aí sim se decidiria o nosso tão maltratado destino colectivo.
Casmurro e parvo como sou (ou do “contra”, para facilitar), eu, sozinho e calado, com medo de várias retaliações, de Super Bock Green na mão, torci pela Holanda. É verdade que os jogadores holandeses não falam tão bem português como o Deco, o Pepe, ou o Bosingwa, mas porra praticavam um futebol tão bonito! E depois cheguei a pensar que na Holanda talvez as actividades ditas amadoras e as suas federações recebam um apoio condigno do Estado, ou que os jogadores com deficiência e os para-olímpicos tenham óptimas condições de treino e competição, e o reconhecimento e estima do público e da comunicação social, e que os clubes holandeses apostem como ninguém em escolas de formação, e que os dirigentes desportivos não sejam intermediários entre o poder político e o poder económico… E depois de pensar isso, não me senti assim tão mal por ter torcido pela Holanda. Tanto mais que os jogadores holandeses seleccionados estavam em campo para jogar com empenho e garra, suando a camisola.

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