“Scutipoito”

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Miguel Rego

arqueólogo

Definitivamente, não! É a única expressão sensata que me vem à cabeça. E por duas razões muito fortes. A primeira é que não podemos conceber, sequer como hipotética, a construção do campo de tiro para os aviões militares, entre Serpa e Mértola. A segunda é de que é inconcebível a ideia profundamente ilegítima e irracional que está por detrás da construção do IP8, a partir d’agora “Scutipoito”. Aquela que deveria ligar Sines a Ficalho, mas que, afinal, se fica por Beja, será finalmente feita, mas a sua utilização está sujeita a portagens. Da primeira ideia estou ainda descansado, pois será ainda objecto de decisão do escriba que tem nas mãos o folhetim grandiosamente apelidado de AeroLisboa – OTA + Alcochete – Lisboa + 1 = a JAE – IE + empresa de capitais exclusivamente públicos = 2099. No entanto, mesmo que passe ao primeiro papel, terá seguramente à pega, numa segunda fase, a viril oposição das associações de defesa do património e dos caçadores da região, para além dos potenciais interessados num importante projecto turístico de características transfronteiriças, nas terras de Mértola. Contudo, não posso deixar de exclamar de que é preciso ter imaginação! Ou então, e aí fico verdadeiramente especado, constato que é mais fácil construir um aeroporto e um campo de tiro na região do que construir uma casa ou mudar de cultura arvense. Mas fico, desde já, com a certeza absoluta de que afinal a passarada, a REN, a RAN, as raposas, os abutres do Egipto, os quebra-ossos e os linces do deserto, desculpem, ibéricos, já não são para aqui chamados. Definitivamente, qualquer assunto de dificuldade acrescida, mesmo que ponha em causa a fragilizada biodiversidade e a riqueza natural da região, desde que se decrete que é um PIN, deixa de ser problema. Acho bem. Desde que o desenvolvimento seja para bem da nação… Vivam os “pins”! Mas agora o “<i>Scutipoito</i>” … Com portagens? Só pode ser brincadeira. Não bastam as distâncias que é necessário percorrer para fugir ao corriqueiro caminho de quem quer ir para a zona de Sines. E a importância que a ligação do porto marítimo e dos terminais que lhe estão associados pode ter para o desenvolvimento deste Alentejo. E a ligação deste porto marítimo à Espanha? Não estamos a falar de uma via de comunicação feita, em particular, para o apoio a serviços, a actividades descontextualizadas ou a coisa nenhuma, porque o cidadão comum já não conta para nada. Estamos a falar de uma via de comunicação fundamental para ligar o Alentejo à Andaluzia (em particular as cidades de Sevilha e Huelva), com a perspectiva da deslocação de importantes actividades e serviços para a região, considerando a profunda alteração do aparelho produtivo na zona de Beja que provocará aqui a instalação do aeroporto e de indústrias ligadas aos bio-combustíveis. Não ao campo de tiro e não às portagens no “<i>Scutipoito</i>”. E é preciso escrevê-lo já!

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