Salazar e eu!

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Hélder Guerreiro

Nasci em 1970 que foi um ano nem bom nem mau, foi antes da liberdade e foi depois de 1968, do Maio de 68. Nasci num ano que ninguém lembra por nenhuma questão em particular.
Assim, nasci eu num quarto (por baixo de um vão de escada), numa casa que alguém já derrubou (para construir uma nova), na rua para o cemitério em São Teotónio, concelho de Odemira, Baixo Alentejo.
Cresci com escola pública e em três anos tinha feito o primeiro ciclo (já sabia ler e fazer contas quando fui para a primeira classe porque a minha mão gostava de ter sido professora). Fui, com nove anos, para Odemira fazer o segundo e terceiro ciclos e a secundária. Não tive professores de Português (daí a quantidade de erros ortográficos), de Física e de Matemática foram um disparate mas finalmente, na Secundária, no 11º ano tive os melhores professores da minha vida.
O Abílio Sampaio (Filosofia) e a Mimi (Português) mudaram a minha vida com estrondo. Ainda hoje recordo o prazer da descoberta da leitura, da interpretação do que está escrito de forma velada, com segundo sentido. <b><i>As viagens na minha terra</i></b>, <b><i>Os Maias</i></b>, <b><i>Do Universo ao Homem</i></b> e <b><i>O polegar do panda</i></b> foram livros que me fizeram pensar, ter atitude critica e adorar a política!
Lá fui eu para Beja para o Instituto Politécnico de Beja e a minha vida cresceu mas estagnou, conheci muita gente de esquerda. Percebi que o Abril em Odemira não se comemorava apenas por ser uma sucessão de concertos anuais de grande qualidade. Percebi que a liberdade tinha estado suspensa durante décadas.
Percebi que as histórias da minha avó sobre o tempo em que fora feliz tinha que ver com o tempo em que ela era jovem e compreendi, finalmente o que queriam dizer os gritos de choro que ela me contava que ouvira na rádio sobre “Goa, Damão e Dio” e sobre um grande homem que voltara de nome Mário Soares.
Salazar e a ditadura não eram mais do que nada para mim e por isso cresci em liberdade absoluta, sem limites os meus sonhos foram acontecendo, nem sempre pela ordem certa, à medida que os anos desfilavam em completa felicidade.
Nem vale a pena falar nas alterações físicas na minha terra porque é o dia da noite. Desde as funções domésticas colectivas dos gaiatos da rua (de manhã ao leite da vaca onde hoje é a EB 2,3 de São Teotónio e à tarde ao despejo, em baldinhos, das fezes na fossa colectiva) até um mundo onde existe uma rede de esgotos decorreram duas décadas. Incrível!
Aprendi o papel do Estado, criei associações e movimentos da sociedade civil (depois de voltar da universidade), candidatei-me e participei em todos os órgãos autárquicos locais (Assembleia de Freguesia, Assembleia Municipal e Câmara Municipal). Ganhei todas as eleições locais e fiz parte de todas as estruturas do Partido Socialista desde o local ao regional. A minha única derrota foi a candidatura a presidente da Federação do Baixo Alentejo do Partido Socialista!
Apoiei o Manuel Alegre contra o José Sócrates nas eleições internas mais interessantes de que me recordo (depois disso foi um deserto interno), continuo a achar que o António Guterres foi o melhor primeiro-ministro de Portugal e Jorge Sampaio o melhor Presidente da República. Sou e serei sempre um homem de esquerda, que acredita nos ideais republicanos, de pluralidade, de solidariedade e de um papel concreto do Estado na sociedade.
Tudo isto foi crescendo convictamente até 2001 quando, em Setembro, percebi que o mundo ia mudar, iríamos perder direitos e liberdades. O mundo já não seria o mesmo no que à confiança entre os Homens diz respeito. Passaríamos a uma curva decrescente de qualidade de vida e a partir de 2008 tudo se desmoronou com enorme estrondo.
Ontem ouvi Passos Coelho, ouvi Gaspar a lamber o coiro ao “melhor povo do mundo e melhor activo de Portugal”, no meio da discórdia evidente com o CDS, e vejo que não temos liderança, não temos sonhos nem temos futuro!
Hoje ouvi vozes de um congresso das alternativas por uma convergência de esquerda contra a "troika" (dizem, os mais optimistas, que foi o lançamento da candidatura de Carvalho da Silva às próximas eleições presidenciais) e aceito que efectivamente não temos liderança, não temos sonhos nem temos futuro!
Hoje, dia da República, ouvi António Costa, recordei o que tenho ouvido ao João Galamba, lembro-me do Ferro Rodrigues, do João Cordovil, do João Ferrão, do André Freire e do voluntarismo inteligente do Álvaro Beleza e aceito que podemos sair deste sufoco de gente doida que não nos leva a lado nenhum.
Ouço o Dário Guerreiro (líder da JS de Odemira), leio com prazer a atitude frenética e positiva de Renata Veríssimo (líder federativa das Mulheres Socialistas), relembro a juventude cheia de maturidade do Rui Faustino (líder Federativo da JS) e tenho esperança na minha região porque os políticos que se seguem (já são uma certeza hoje) são melhores do que eu!
Acredito que este Governo se desmorone com o mesmo estrondo com que fez cair todos os sonhos que tinha para mim e para a minha filha!
O que me resta é a paixão renovada que tenho na vida! A minha força e a minha vontade de fazer melhor a cada dia que passa. Mesmo que teimem em quererem matar-me mais sonhos!
Salazar já foi há muito tempo, outros irão acabar na arca do esquecimento. Por agora ficam as palavras de ordem do congresso das alternativas: renegociar a dívida, defender o Estado Social e convocar eleições!
É o que temos!
Para candidatar Carvalho da Silva não era necessário tanto, mas para termos lideres que nos dêem esperança é preciso muito mais!

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