Saber e Cultura

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Munhoz Frade

médico

Falemos sobre a questão da valorização do saber na sociedade dos dias de hoje.
Tenho como certo que para muitos esta não é uma questão verdadeiramente importante, já que entendem que a dinâmica social se determina pelas posses que indivíduos e famílias detenham. Seria talvez pertinente perguntar porque em relação a este entendimento concordam os extremos do leque político-ideológico, mas deixemos aqui esse repto para outro fórum.
Analisemos antes o eventual antagonismo entre o antigo saber de experiência feito e o conhecimento adquirido em estabelecimentos de ensino. No que respeita a este último, vários formatos podem decorrer na idade adulta, sejam cursos de formação profissional, licenciaturas, pós-graduações, especializações, mestrados, competências, ciclos de estudos, estágios, actualizações, etc. Sendo que a iniciativa umas vezes parte dos interessados, visando objectivos de carreiras profissionais ou projectos de vida, outras vezes são as próprias empresas empregadoras que promovem tais acções, no sentido de preparar os recursos humanos para os objectivos institucionais.
Processo bem distinto é o que caracteriza a outra forma de conhecimento, que todos nós experimentamos, e que a velha expressão “saber de experiência feito” consagrou. Conhecimento integrador de aprendizagens, sinónimo de cultura, sem o qual ninguém é possuidor da sabedoria. Essa forma de conhecimento não se desenvolve com metas pré-determinadas, antes cresce ao longo do percurso da vida de cada indivíduo, dependente dos contextos bio-psicológicos, familiares e sociais. Esse saber pode ter – estou absolutamente convencido da sua imprescindibilidade – um relevante papel na família e na sociedade. No entanto, é grande a resistência à aceitação da sua importância e ao reconhecimento do seu valor, na sociedade em geral, e particularmente nas empresas, erroneamente vendo-o como antagónico ao conhecimento técnico-científico, quando na verdade o complementa e humaniza.
Nos apressados tempos em que a nossa vida decorre, entre muitas palavras soltas pelas ondas dos media, algumas já vão escasseando, raramente alcançando os nossos sentidos com eficácia, atingindo nas nossas mentes a profundidade dos conceitos. Nesse caso está a palavra cultura. Os que da vida têm um sentido muito pragmático perguntam para que serve. Outros, mais intelectualmente artificiosos, querem que definamos o que é. Vivendo numa sociedade rodeados por bens permutáveis, aceitemos que os bens culturais também possam ser considerados produtos, a contento dos práticos da vida.
Nesse mercado de produtos – hoje em dia já não passivamente expostos em prateleiras de supermercado, mas que literalmente voam em direcção aos olhos e ouvidos do público-alvo – o consumidor que logre encher o seu carrinho com maior número de itens poder-se-á considerar o mais culto?
Será esse desiderato atingido pelo somatório de um certo número de leituras, assistência de concertos de música clássica, teatro, ballets e óperas seleccionados, viagens a certas cidades e visitas a museus escolhidos, como programa mínimo obrigatório?
Na verdade, nessa clássica visão de cultura parece ter-se estribado todo um mito em falência, pois que apenas uma pequena parcela da humanidade a conseguia realizar. A falta de aderência (para usar um termo do agrado dos economistas) à realidade social desse plano cultural ficou bem patente na pergunta que o homem da rua depreciativamente faz: para que serve essa cultura? Ao identificar cultura com erudição, excluindo a sabedoria proveniente dos saberes populares, das vivências tradicionais, das especificidades regionais, da diversidade étnica, gerou-se um grande equívoco. Alguns dir-nos-ão que terá sido intencional, com perspectiva de perpetuação do poder da classe dominante, mas convenhamos que essa fase histórica foi ultrapassada, visto que a dominação hoje é feita de modos mais eficazes do que pela ideologia.
Sem querer menosprezar os grandes artistas da cena mundial, a diversificada e feérica cultura dos nossos tempos pode ser vista como uma grande arena, que nos mantém fascinados no dia-a-dia. Para isso serve, para nos anestesiar por excesso de sensações. É a velha receita dos tiranos da velha Roma: panem et circensis… Não queremos ficar numa simples dicotomia maniqueista, reduzindo a nossa análise em afirmações do tipo de que a realidade da questão cultural se caracteriza pela clivagem cultura para as elites versus cultura para o povo. Relativamente ao nosso velho “jardim à beira-mar plantado”, não nos parece merecedor de grande polémica considerar que o nível geral de cultura geral das populações é actualmente baixo. Seria pois um desígnio nacional colocar a fasquia a um nível mais elevado. Porquê, para quê? Como? Muitas perguntas para as quais os profissionais do ensino, da comunicação social, agentes culturais, educadores em geral, famílias e toda a sociedade civil no seu conjunto têm de encontrar respostas.
Que não se pense que a nossa atitude é um nostálgico desejo de regresso a obscuros tempos de antanho. Sem cepticismo, aguardo resultados de uma certa massificação cultural. Tenho uma grande expectativa e – não nego – algum optimismo, pelas consequências – que não podem deixar de ser positivas – de tanto livro a ser vendido em supermercados, provocando a modificação do estilo promocional das próprias livrarias, tornando-as mais abertas e atractivas. Nos meus tempos de menino, líamos tudo o que a mão pudesse alcançar, desde as bandas desenhadas dos jornais à chamada literatura de cordel, como os livrinhos de “cóbois” trocados entre colegas, os empréstimos das bibliotecas escolares devorados à luz de lanterna depois da mãe apagar a luz do quarto, os romances de capa mole das tias, etc, etc. Diz-se que nestes tempos de parafernália áudio-visual está instalada a preguiça da leitura. Tenho alguma dúvida sobre essa afirmação. O panorama editorial nunca foi tão diversificado e o marketing dos livros é eficaz, integrado com os produtos culturais multimédia. Daí a minha curiosidade em estar atento aos resultados. Quantas serão as crianças e jovens leitores de hoje que nos surpreenderão amanhã? Se ao leitor esta é uma pergunta que possa aparentar apenas interesse estatístico, esclareço que se entenda que a resposta à questão teria um significado muito mais amplo.
Seria uma forma de saber qual o reflexo das influências dessas leituras, sobre jovens mentes inquietas, atentas a um mundo complexo, eventualmente desafiadas pela dinâmica dos antagonismos, ajudando-nos a perceber até que ponto a sua criatividade natural terá sido estimulada.
Tenho como certo que a expectativa na juventude continua a justificar o nosso optimismo. Se o atrevimento natural dos jovens – e o mesmo se diga dos criadores culturais em geral – se deixasse inibir pelas interdições de um mundo tabelado, feito à conveniência dos negócios, a própria literatura seria reduzida a uma ciência árida e a poesia tornar-se-ia clandestina. Num mundo sem sonho, sem cultura, entraríamos no obscurantismo, seríamos rapidamente espoliados da nossa própria vida.

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