Regresso à mina

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Carlos Pinto

director do correio alentejo

Foi na manhã quente de 15 de Maio de 2006 que tudo recomeçou. Foi nesse dia que o presente colocou o futuro no lugar do passado. Um dia que instalou em cada aljustrelense o frenesim da esperança a renascer. Ao longo de décadas, Aljustrel viveu de, para e com a mina. Foi nas galerias escavadas no seu subsolo que o concelho alicerçou grande parte do seu desenvolvimento socio-económico, extraindo do minério o sustento de muitas famílias. Por isso, quem conhece Aljustrel sabe bem a crise com que o concelho se debateu no início da década de 90. A suspensão da laboração mineira na Pirites Alentejanas em 1993 significou a amputação de muitos projectos de vida e tanto sofreram os que na mina trabalhavam como os que com ela contavam para os seus negócios.
A dependência secular de um concelho face a um único sector é sempre uma faca de dois gumes. Tanto as coisas correm a todos os níveis como, num ápice, se entra num processo de depressão cuja terapêutica é difícil de concretizar. Os tempos actuais, mais que nunca, comprovam este facto com invulgar frieza. E em Aljustrel o encerramento da mina acabou por ser um trauma mal resolvido, ainda para mais quando a esperança na retoma da laboração nunca morreu.
Mais de uma década depois, Aljustrel está mesmo de regresso à mina. A expectativa da população é muita e os primeiros impactos já começam a verificar-se nos mais pequenos actos do dia-a-dia. O concelho tem pela frente uma espécie de “segunda oportunidade”, que todos merecem mas poucos alcançam.
Daí ser necessário a Aljustrel, mais que desfrutar os lucros do momento, capitalizar a mina e transformá-la na mola impulsionadora de um concelho capaz de, no futuro, sobreviver sem ter de descer às catacumbas de Algares ou Feitais. Como? Criando condições para a constituição de um tecido económico homogéneo e auto-sustentado, moderno e aberto ao futuro, capaz de aproveitar recursos endógenos como a natureza ou tirar partido das potencialidades turísticas e agrícolas da região. Porque mina há só uma e o minério vai um dia acabar.

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