Quem quer ser político?

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

David Marques

As notícias recentes sobre a ida de Jorge Coelho para a presidência de uma grande empresa construtora nacional e, em particular, as insinuações levantadas a propósito dessa situação, colocam novamente num plano de destaque a suspeita generalizada sobre o desempenho da actividade política por parte dos cidadãos portugueses. Infelizmente, esta é uma constante da sociedade em que vivemos e protagonizada pelos grandes meios de comunicação social. É comum ouvir expressões como: “não percebo nada de política” ou “não me interessa política”, como se tratasse de outro assunto qualquer como futebol ou filatelia, em vez de algo que nos afecta, implica e liga a todos. São expressões típicas de pudor e de algum distanciamento relativamente a algo que não valorizamos, a algo a que não queremos estar associados. Esta é uma herança cultural própria de um país com uma história recente de vivência democrática. Antigamente não queríamos saber de política porque esta estava reservada apenas àqueles que o regime determinava. Hoje não queremos saber de política porque essa está reservada a más consciências com as quais não queremos ser confundidos, em público. Este é também um reflexo da educação que proporcionamos aos nossos cidadãos, que apresenta a política como um jogo de influências e não como uma actividade nobre que promove o interesse geral, despertando nojo e invejas.
Já tive oportunidade de partilhar neste jornal, em artigos passados, que não faço parte daqueles que consideram os titulares de cargos políticos uns corruptos, que respondem apenas à satisfação de interesses pessoais ou “tachistas”. Não costumo alinhar na crítica fácil e generalista que assume como ponto de partida que alguém, só porque é ou foi um político, é automaticamente suspeito de qualquer acto menos próprio, ilegal ou pouco ético só porque as circunstâncias o possam sugerir. Acredito que a actividade política é uma responsabilidade e uma oportunidade para que se promova o bem público e quem a assume deve ser objecto de reconhecimento colectivo.
Por esta razão, não posso concordar com a onda de insinuações levantadas que só alimentam este maior afastamento das pessoas da política. A lei de incompatibilidades define desde logo um quadro de impedimentos algo restritivo. Contudo, assistimos a uma cruzada mediática que vai além da lei, que coloca em campo constantemente a dúvida, sobretudo, sobre o plano ético. Neste quadro de suspeita generalizada importa perguntar: quem de bom senso está disponível para se envolver nesta actividade? Quem responde positivamente aos sinais emitidos? Os recursos qualificados? As pessoas com um curriculum pessoal e profissional estável e reconhecido ou os outros?
Os poucos defensores da classe política sustentam soluções como a valorização da retribuição financeira associada às funções, que sustenha tentações e atraía os melhores. Não discordo. Contudo, importa, no meu entender, intervir a outro nível. Educar os jovens para uma nova perspectiva do exercício da actividade política, inserida na promoção da cidadania, é uma prioridade. Assumir uma nova abordagem no plano mediático será também um passo útil, nesta caminhada de credibilização, que a todos serviria. Sem este tipo de intervenções é complicado gerar mudanças.
A continuar este estado de coisas, um político confunde-se cada vez mais com um árbitro de futebol – assobiado por todos antes de entrar em campo, insultado por alguém em todas as suas decisões, assobiado ao sair de campo e constantemente vigiado, nas suas saídas, nos seus jantares, escutado e espiado. Não admira que existam cada vez menos.

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