PSD à deriva

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

João Espinho

Milito no PSD desde 1979, com altos e baixos na actividade partidária, umas vezes de acordo com as linhas traçadas pelas lideranças, outras em completo desacordo.
Apoiei a solução AD fundada por Sá Carneiro, quando muitos manifestavam a sua desconfiança nos resultados dessa solução. Os 45% e os 47% de 1979 e 1980 provaram que, apesar dos contestatários, Sá Carneiro estava no bom rumo.
Manifestei-me, nos locais próprios, contra as lideranças de Pinto Balsemão e Mota Pinto.
Apoiei Cavaco Silva até o seu Governo se transformar numa quinta mal frequentada. Não estive ao seu lado quando fez da reeleição de Mário Soares um passeio eleitoral e fez com que alguns meus companheiros de partido se humilhassem num incompreensível apoio ao candidato da direita. Voltei a apoiá-lo quando se candidatou pela primeira vez a Presidente da República, numa altura em que poucos eram os que queriam dar a cara pela sua candidatura. Fui um fervoroso apoiante de Durão Barroso quando o aparelho do partido e as inerências o derrotaram num dos mais conturbados congressos do PSD.
A liderança de Marcelo Rebelo de Sousa foi vista a cerca de 3.000 km de distância e com indiferença.
Quando regresso a portugal, no final de 2000, já Durão Barroso liderava o Partido, lutando contra uma fortíssima torrente onde desaguavam “santanistas”, “mendistas” e outros idolatrados candidatos.
Foi com muito entusiasmo que participei nas Autárquicas de 2001 e rejubilei com a fuga do responsável pelo pântano.
As legislativas de 2002 elegem Durão Barroso como Primeiro Ministro e este, amedrontado com os 8% de Paulo Portas, estende a mão ao CDS, leva a direita para o Governo e dá, assim, início a um processo de deriva dentro do PSD. Os episódios da sua ida para Bruxelas, entregando o partido a um líder não eleito e a compreensível atitude de Jorge Sampaio em nomear o herdeiro social-democrata como primeiro ministro, são episódios demasiadamente recentes para que valha a pena recuperar alguns detalhes, pois só os esquecerão aqueles a quem lhes interessa a memória débil.
A derrota de Santana Lopes, previsível para todos menos aos olhos de casmurros e indefectíveis, trouxe ao PSD um Marques Mendes com credibilidade mas sem a tenacidade que se exige a um líder de oposição a um Governo de maioria absoluta. A sua falta de visão estratégica e uma pálida liderança foram-lhe fatais, e o PSD elegeu um primus inter pares dos herdeiros do santanismo e daquilo que menos se deseja dentro de um partido.
Incompreensivelmente, as ditas figuras de peso, barões e outros actores de renome, remeteram-se à sua ambivalente e hipócrita comodidade, não arriscando uma pronúncia opositora, demitindo-se das suas responsabilidades, deixando o PSD entregue ao desatino, à espera da oportunidade de se apresentarem como salvadores do PSD e, por tabela, do país. Demitiram-se de apontar que o caminho do PSD tem que ser o inverso daquele que Luís Filipe Menezes (LFM) está a trilhar.
E que caminho é este?
É o da pura e insana demagogia.
Quando o país necessitava de alguém que explicasse que a Saúde, Educação, Justiça deste Governo tinham alternativa noutras políticas, o líder do PSD vem propor aos portugueses o fim da publicidade na RTP.
Numa altura em que a contestação invadiu as ruas, o líder do PSD vem também ele para a rua, dizendo aos portugueses que as políticas se combatem na rua e não na apresentação de propostas alternativas.
Depois de compromissos assinados, LFM leva o PSD a representar a ridícula figura de quem não sabe assumir as responsabilidades e de respeitar esses mesmos compromissos, adoptando um infantil e birrento comportamento, sem soluções alternativas ou sequer um esboço de vontades políticas.
LFM não tem uma proposta real e concreta para o país, porque o país não lhe interessa.
Porém, ao país interessa que a este PSD suceda um partido credível, dinâmico e com sentido de Estado.
Este PSD virou as costas ao país. A continuarmos assim, em 2009, o país virará definitivamente as costas ao PSD.
E a culpa não será só de Luís Filipe Menezes.

<p align=’right’><b><i>(crónica igualmente publicada em
<a href=´http://www.pracadarepublicaembeja.net´ target=´_blank´ class=´texto´>http://www.pracadarepublicaembeja.net</a> )</i></b></p>

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