Profissão: Político

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

António Revez

Desde o tempo de Péricles, onde a democracia era feita de ingenuidade e autenticidade, que se discute a remuneração e profissionalização dos detentores de cargos públicos. E ao longo da história intermitente e atribulada da democracia e das suas múltiplas versões, foi-se caminhando do extremo da republicana virtude do serviço público, uma espécie de franciscano dever para com a polis, para o extremo do carreirismo partidário e político, esvaziado de estóicas devoções ao bem comum e munido de aliciantes compensações financeiras. Contudo, apesar dos elevados salários que auferem ministros, secretários de Estado, sub-secretários, deputados, presidentes de câmara, vereadores, e todo um exército de nomeados, a quase totalidade destes empregados da política, arrancam uma cínica coragem lá das entranhas da pose desinteressada e dignam-se chorar em público que estão na política apenas e só para servir o país e o interesse das populações.
Esta vergonhosa léria é ensinada e promovida na catequese partidária. Mas a verdade e os factos são bem diferentes. Grande parte dos profissionais da política nunca foram na vida outra coisa senão isso, viveram sempre da política, dos aparelhos partidários e dos cargos distribuídos por estes e pela máquina do Estado da qual eles se apoderam. Muitos obtiveram cursos e títulos académicos e formações para profissões que nunca exerceram ou apenas por lá “estagiaram”.
O que temos em Portugal, espalhados pelos corredores do poder central e do poder local, intercomunicáveis, são políticos de carreira e não de vocação, políticos que precisam da política como sustento e garantia de providência, e também políticos que se servem da política para enriquecerem, muitas vezes ilicitamente. Estes políticos de profissão estão cativos de todas as lealdades e disciplinas partidárias, a sua liberdade de pensamento e expressão é uma interdição moral ou um risco e ameaça de “despedimento” político-partidário. São uma enfermidade, transformam a democracia numa ocasião de governo pessoal.
Por isso mesmo, e porque os cargos públicos electivos deviam constituir uma bênção comunitária e pessoal para os que a eles se candidatam, sem que daí auferissem uma vantagem material ou profissional e também sem que daí incorressem num prejuízo material ou profissional, deveria a lei estar feita de modo a que o elenco governativo, deputados, presidentes de câmara e vereadores, e também os cargos de nomeação política, não ganhassem mais nem menos do que ganhavam nos empregos que tinham quando se candidataram ou foram nomeados. Mas porque tal legislação soará a muitos como implausível, sobretudo para os milhares de beneficiários da sua inexistência, outra deveria haver: refiro-me a mudanças na lei fiscal no sentido de dar transparência e fiscalização ao património dos detentores de cargos públicos, e assim combater flagelos como o enriquecimento ilícito desses titulares, especialmente no âmbito do poder local.
Não seria ainda a democracia o governo do povo para o povo, mas seria menos a democracia o governo de bandidos para eles próprios.

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