Desde o tempo de Péricles, onde a democracia era feita de ingenuidade e autenticidade, que se discute a remuneração e profissionalização dos detentores de cargos públicos. E ao longo da história intermitente e atribulada da democracia e das suas múltiplas versões, foi-se caminhando do extremo da republicana virtude do serviço público, uma espécie de franciscano dever para com a polis, para o extremo do carreirismo partidário e político, esvaziado de estóicas devoções ao bem comum e munido de aliciantes compensações financeiras. Contudo, apesar dos elevados salários que auferem ministros, secretários de Estado, sub-secretários, deputados, presidentes de câmara, vereadores, e todo um exército de nomeados, a quase totalidade destes empregados da política, arrancam uma cínica coragem lá das entranhas da pose desinteressada e dignam-se chorar em público que estão na política apenas e só para servir o país e o interesse das populações.
Esta vergonhosa léria é ensinada e promovida na catequese partidária. Mas a verdade e os factos são bem diferentes. Grande parte dos profissionais da política nunca foram na vida outra coisa senão isso, viveram sempre da política, dos aparelhos partidários e dos cargos distribuídos por estes e pela máquina do Estado da qual eles se apoderam. Muitos obtiveram cursos e títulos académicos e formações para profissões que nunca exerceram ou apenas por lá “estagiaram”.
O que temos em Portugal, espalhados pelos corredores do poder central e do poder local, intercomunicáveis, são políticos de carreira e não de vocação, políticos que precisam da política como sustento e garantia de providência, e também políticos que se servem da política para enriquecerem, muitas vezes ilicitamente. Estes políticos de profissão estão cativos de todas as lealdades e disciplinas partidárias, a sua liberdade de pensamento e expressão é uma interdição moral ou um risco e ameaça de “despedimento” político-partidário. São uma enfermidade, transformam a democracia numa ocasião de governo pessoal.
Por isso mesmo, e porque os cargos públicos electivos deviam constituir uma bênção comunitária e pessoal para os que a eles se candidatam, sem que daí auferissem uma vantagem material ou profissional e também sem que daí incorressem num prejuízo material ou profissional, deveria a lei estar feita de modo a que o elenco governativo, deputados, presidentes de câmara e vereadores, e também os cargos de nomeação política, não ganhassem mais nem menos do que ganhavam nos empregos que tinham quando se candidataram ou foram nomeados. Mas porque tal legislação soará a muitos como implausível, sobretudo para os milhares de beneficiários da sua inexistência, outra deveria haver: refiro-me a mudanças na lei fiscal no sentido de dar transparência e fiscalização ao património dos detentores de cargos públicos, e assim combater flagelos como o enriquecimento ilícito desses titulares, especialmente no âmbito do poder local.
Não seria ainda a democracia o governo do povo para o povo, mas seria menos a democracia o governo de bandidos para eles próprios.

Concelho de Ourique “na rota” do Mundial de gravel
Cerca de 1.000 atletas de 34 países são esperados na segunda edição do UCI Alentejo Gravel, prova que se realiza no concelho de Ourique neste







