Presidenciais

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Hugo Lança Silva

professor do ensino superior

As eleições são o orgasmo da democracia! Ou, se a frase pode ofender os meus mais puritanos leitores, as eleições para a democracia estão como a procriação para o casamento: são aquelas que caracterizam esta, são a sua razão de ser e de subsistir! Mais do que não existir democracia sem eleições, são as eleições que descrevem a democracia!
Por isso o dia das eleições deveria ser de êxtase: contados os votos, eleito, neste caso o Presidente, o país devia elevar-se numa onda de esperança renovada, na crença de que as coisas iriam melhorar! Mesmo que passado uns meses tudo ficasse na mesma e voltássemos a mergulhar na lusitana apatia, nesta nossa tristeza andante, este desalento, neste nosso fado!
Porque é essa a definição de democracia: pessoas ou partidos oferecem-nos um projecto para o futuro do país, fazem-nos parte de uma crença colectiva, motivam-nos a acreditar num ideal! E a vitória daqueles em que votámos, num projecto do qual também fazemos parte, é um momento de júbilo e de esperança, de confiar que o amanhã vai ser melhor do que ontem! A derrota dos que apoiámos deverá ser um momento de reflexão e igualmente de confiança, um aceitar que não somos donos da razão, um acatar com respeito a vontade da maioria!
Muitos dos nossos melhores, tanta gente boa deste país deu tanto de si, tanto lutou, tanto sofreu, tanto perdeu, para oferecer à geração seguinte, uma das mais deliciosas prendas do mundo: o presente de sermos livres para em democracia escolher o nosso futuro!
Mais fria do que a noite eleitoral do passado domingo, só mesmo a temperatura! Porque a noite de domingo foi o culminar de uma campanha que roçou – ou ultrapassou – o patético, um deserto absoluto de ideias, um lago de demagogia onde tudo se discutiu menos a competência presidencial, um repetir do jogo canalha das insinuações ao carácter, algo que começa a ser a forma recorrente de se fazer política em Portugal!
E domingo os portugueses deram a resposta que estes candidatos mereciam: 53% dos eleitores não se deram ao trabalho de votar, mais de 6% dos que disseram presente fizeram desenhos sugestivos no boletim ou votaram em branco, 4,5% votaram num Titirica e, apesar de uma campanha medonha, mais de 14% dos eleitores escolherem Nobre!
Destas palavras ninguém procure juntar a minhas voz aos tontos que procuram retirar legitimidade política ao Presidente eleito, porque, os números são muito similares aos do Presidente Jorge Sampaio e as vozes que agora falam, fizeram no passado o que melhor sabem, i.e., calaram-se! Dito isto, escamotear a necessidade de reformular o sistema eleitoral, esconder a urgência em credibilizar a política e os políticos é um atentado contra a democracia!
A democracia é como uma bela mulher: no dia que pensamos que está conquistada para sempre, é o dia em que a começamos a perder! Portugal não tem massa crítica para um Presidente, 50 membros do Governo, 250 deputados, duas dezenas de governadores civis, trezentos presidentes de câmara, milhares de vereadores, milhares de presidentes de junta, mais os milhares e milhares de cola-cartazes que enchem os gabinetes desta gente toda, empresas públicas e municipais! O eleitor do século XXI não suporta continuar a votar em “Zé ninguens” que ninguém conhece e reclama pelo direito a votar especificamente em quem deseja, ou seja, em círculos uninominais, de forma a poder responsabilizar directamente quem o representa! Mas claro que os partidos não querem ler isto: era só o que faltava terem de escolher pessoas com base na competência…

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