É preciso alternativa

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

António Revez

Chegados praticamente a meio do mandato autárquico bejense, já os mais cépticos podem confirmar as suas negras expectativas, os mais convictos sentirem-se frustrados e os mais iludidos desenganarem-se. Beja permanece prisioneira de uma oligarquia comunista pequeno-burguesa cada vez mais desintegrada partidariamente e mais consolidada na manutenção da “coligação dominante”, o que, ainda traz compensação eleitoral, conseguida pela fidelidade partidária dos idosos, pelas promessas de carreira e oferta de emprego para os politicamente próximos, e pela “jogada segura” de muitas famílias de clientes, fornecedores e prestadores de serviços da câmara, que preferem não arriscar uma mudança partidária no executivo da câmara, de consequências por vezes nem sempre favoráveis para os credores.
Também pouco a pouco se vão denunciando ou sendo denunciadas as subterrâneas ou “petiscadas” relações entre os responsáveis autárquicos e os patos-bravos da construção, os especulativos fundiários, os investidores imobiliários, configurando uma promiscuidade flagrante entre os interesses políticos, económicos e pessoais. Esta situação, que vem do passado, ajuda a perceber por que é que adversários políticos de direita se amansam em engraxamento de polimento ao executivo comunista ou se empinam em estapafúrdia colagem de posições. O que parece absurdo e incoerente politicamente ganha a razoabilidade das vantagens económicas e pessoais quando se descobre que o senhor “A” tem vários terrenos em banho-maria à espreita da urbanização, ou quando o senhor “B” aguarda decisões de licenciamento, ou quando o senhor “C” confia que as múltiplas transgressões urbanísticas cometidas não lhe acarretem penalizações e embargos. E por isso, afinal, não espanta que certos apoios políticos venham donde seria mais improvável virem.
Este quadro evidencia também a incapacidade dos partidos em controlar e fiscalizar politicamente os “seus” autarcas, os quais ganham um protagonismo e um poder de influência que trazem reféns as estruturas partidárias locais e regionais e as condenam ao assentimento político ou, então, a “disparar para o lado”, elegendo como alvos o Governo nacional ou os adversários políticos. Foi neste lance estratégico que surgiu o Movimento BAAL 21, uma extraordinária oportunidade para o PCP envolver muitos daqueles que “serve” e capitalizar a insatisfação geral em torno do “triângulo” mítico do desenvolvimento, desviando as atenções do impasse estratégico e inépcia governativa de muitos dos seus autarcas.
Este quadro também se alimenta de uma inércia impressionante, favorecida pela oposição política, que vem anestesiando ao esquecimento aberrações como a longevidade interina do director do “Diário do Alentejo”, o silêncio face ao grotesco “Beja digital”, o falhanço do “Município Participado”, a anedota do “Beija”, o “flop” da “Colina do Carmo”, o “truque” do empréstimo contraído pela autarquia, a inexistente Carta Cultural do Concelho, a indefinição da Casa da Cultura, a inoperância do Gabinete de Informação da autarquia, o homicídio dos grandes eventos culturais para a juventude, a patetice caricata da “BejaSenior”.
A isto tudo e muito mais deve somar-se um presidente de Câmara com um perfil totalmente desajustado ao cargo que exerce. Uma pessoa de impertinências e birras, impermeável às críticas, capaz de sacrificar o interesse comunitário ou a justeza de um apoio a uma associação ou a uma iniciativa por razão de incompatibilidade pessoal ou antipatia por um promotor. Para além disso, não levou a cabo uma anunciada e esperada reestruturação dos serviços e seus responsáveis, limitou-se a alguns “arranjos” internos justificados, mas manteve vários “intocáveis”, protegidos de vereadores, apesar da continuada incompetência daqueles, e até promoveu figuras que têm levado a associar-se o nome da Câmara Municipal ao disparate, ao arbítrio, e à impunidade. E, mais grave que tudo, não tem a mínima ideia do que seja um “projecto de cidade”, é um esforçado “gestor de contingências”, sem uma visão estratégica para a cidade.
Perante isto tudo encontramos uma oposição política atabalhoada e inconsequente, quer no âmbito da vereação, quer em contexto de Assembleia Municipal, salvo raras excepções mais rebeldes que alinhadas.
Ora, chegados a meio deste mandato autárquico vai sendo tempo de se pensar e construir uma alternativa. Uma alternativa que não pode nascer da aprovação dos aparelhos partidários, nem de alianças pós-eleitorais. Uma alternativa que deve começar agora a ser desenhada e que pressupõe um empenhado investimento de independentes e daqueles que, apesar das suas ligações partidárias, tenham a boa vontade política suficiente para pôr constrangimentos partidários de lado e a sabedoria e sensatez de se unirem em torno de um projecto plural e aberto, especialmente receptivo ao contributo dos cidadãos e das suas estruturas representativas e fortemente motivado para fechar um “ciclo político” unicolor na câmara municipal de Beja, ciclo que está saturado de vícios, desperdícios e cumplicidades e que não pode, a continuar, hipotecar, mais uma vez, o futuro de Beja e das suas gentes.

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