É preciso acreditar

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Miguel Rego

arqueólogo

Os euros empacotados que se anunciam vindos da Europa para o Alentejo, através deste quadro comunitário que voará até ao ano da Graça de 2013, e que começa agora a dar os primeiros passos… Mais os investimentos que se adivinham à volta de Évora, tendo como âncoras o turismo e os cinco campos de golfe… Mais o aeroporto com ou sem oficinas da TAP e todas as infra-estruturas adjacentes que vão mudar, indubitavelmente, a face deste Alentejo, cá mais em baixo… Mais todos os outros projectos que o regadio de Alqueva trará… Mais a produção de energia fotoeléctrica, fotovoltaica, eólica e outras alternativas a que o Alentejo dará sol e pastagens para ovelhas… E as transformações que a vinha, o azeite e os produtos geneticamente alterados oferecerão aos nossos empresários agrícolas vindos, na sua maioria, ali do outro lado da fronteira…
Perante isto, o Alentejo precisa responder. Precisamos de pessoas, de técnicos, de imaginação e muita capacidade de gestão para ajudar a desenvolver, sem destruir, a especificidade da região. Para não nos tornarmos, de uma forma simplista e quase subserviente, os criados dos senhores engenheiros. Daqueles que nos vão invadir com novas soluções micro para o desenvolvimento endógeno no âmbito dos processos fractários da produção global. Em resposta a tudo isto, precisamos de formar os nossos jovens para criar capacidades de resposta consentâneas com as necessidades que a nova ordem socioeconómica vai impor. Precisamos de formação e de perguntar, antes de responder aos que aqui chegarão trazendo todas as respostas que queremos ouvir. O Alentejo vai mudar. Assim e da mesma forma como mudou quando se introduziram os fosfatos na produção cerealífera, em pleno século XIX. Trouxe mais gente, novos hábitos e novas realidades sociais e culturais. Quase cem anos depois respondemos com a larga maioria dos terrenos completa e desesperadamente inférteis e uma grande parte do território a sofrer de profundos impactos erosivos. As populações não vivem do que a terra produz, não desenvolvemos novas ideias em torno da terra e nem a Escola Agrária parece saber dialogar com os actores do mundo agrícola na região. Para que isso não volte a acontecer precisamos que os nossos jovens acreditem que este Alentejo é uma região em que vale a pena viver. Mesmo com resultados no ranking das escolas do Secundário pouco animadores…

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