Praxaria

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Jorge Serafim

contador de histórias

Sem um rasgo de originalidade mas em nome de um nobre princípio, o da integração, planificam-se e executam-se uma série de acções todas elas, carregadas de enorme dignidade para o crescimento e amadurecimento do ser humano. Estes maravilhosos e interessantíssimos rituais, símbolos da passagem do adolescente para a fase adulta, a que os veteranos denominam de praxe, segundo os próprios, tem o objectivo fundamental de integrar o novato estudante no meio académico e abrir portas para um efectivo conhecimento do que a cidade tem de melhor para oferecer aos seus novos efémeros habitantes. Com especial incidência nos seus monumentos mais significativos: bares, “discos”, tascas, restaurantes baratuxos, quintas à noite, o café do mercado às seis da manhã, os franguinhos do alemão, os <i>hambrugues </i>do Mac, o Parque da Cidade para baptizos de praxe, a charca do Jardim do Bacalhau para baptizos de praxe o lago esverdeado do Jardim Público para baptizos de praxe, de pedra e cal, ano após ano repete-se a mesma lenga-lenga. Rostos pintados, roupa interior usada exteriormente por cima da verdadeiramente exterior, éferrreaa prá ti, <i>éferrreaa </i>pr’a mim, <i>éferrreaa </i>para quem o quiser apanhar. Quanto mais maldosa imaginação mais tradição. E assim vamos de vento em popa sem um grupo de teatro universitário em Beja. Sem um grupo de música que não seja o das tunas universitárias. Sem uma capacidade propulsora de sentido crítico. Sem uma efectiva abertura para o meio que o acolhe. O ensino superior tem a obrigatoriedade de ser um espaço privilegiado de educação, de formação, de interrogação, de discussão, de confronto, de revolução de conceitos e ideias, de renovação, de experimentação. É o espaço onde se exerce democracia a torto e a direito. Mas também é o seu pulsar e o seu barómetro. Chamar tradição a práticas onde praticamente se discrimina quem se assume como objector de consciência é um sinal de que a tal democracia também se exerce em códigos próprios, socialmente aceites na mais profunda demagogia, à margem da tolerância, da diferença e da razão. A praxe não integra nem nunca integrou alguém em lado algum e mesmo que o fizesse, com certeza que puxando um bocadinho pela <i>moleirinha</i>, se descobriria estratégias muito mais eficazes de atingir os tão dignos propósitos a que se propõem cumprir as gentes de capa e batina. E porque não uma democratização desta tradição? Provavelmente a democracia já não chega a tanto.

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