Pão e circo

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Pedro Prista

professor do ensino superior

Quando hoje ouvimos clamar pelo regresso ao fundamental, sabemos que é do “pão” que se trata, numa forma ou noutra. No campo oposto o que se coloca então é a “cultura” e, no jogo viciado desta dualidade, tomam-se decisões expeditas que o suposto bom senso cauciona, mesmo quando lamenta a sua necessidade.
Nisto da “cultura” cabem muitas e muito vastas questões, entre as quais se encontra a das intrigantes vias pelas quais ela aparece afinal unida ao “pão” ao qual deveria ceder hoje prioridade. É assim que nos últimos anos se gerou um interesse crescente pela chamada “economia da cultura”, pela sua avaliação quantificada e pelo reconhecimento dos muitos domínios, do emprego à finança, da coesão social aos indicadores de desenvolvimento, que o velho dualismo impedia de considerar convenientemente.
Muito se avançou entretanto, mas alguns alçapões se revelaram também e vieram moderar a esperança ingénua de ver as “artes” e a “cultura” resgatar o futuro económico e cívico das nossas sociedades. No espaço lato da chamada “cultura” avultava uma imensa e poderosa indústria: a publicidade.
Criativa e rentável, germinando no fértil terreno da liberdade civil e da ciência das mentes e dos neurónios, a publicidade cresceu e imiscuiu-se por toda a parte, dando cheque mate a todos os argumentos à sua limitação, dos mais óbvios como o da “liberdade”, até aos mais sinuosos como o da investigação científica e tecnológica que induz e paga. Na prática, tudo era comunicação, ícone e criatividade de conteúdos.
Com o sofisticado saber que desenvolveu, tomou conta de tudo o que nos fala – da rádio e televisão às bermas das estradas; das camisolas dos desportistas às salas de aula – e fabricou até as tecnologias para nos falar mais, melhor e a partir de mais sítios. Quando pensamos na força imensa desta indústria do torpor mental, que tem hoje às suas mãos a sobrevivência dos próprios “media” de que depende, percebemos que se foi trancando à nossa volta um círculo cego, cuja existência depende das cegueiras em que nos consiga manter, como a da crescente hipnose do espectador especado e a da automação dos seus reflexos perante sinais.
E é tudo? Acabou aqui a cultura às mãos da narco-comunicação? Não, nem pensar em banir a publicidade, mas há caminhos a retomar como o de activar os lugares onde outra cultura se possa exprimir a começar por aquela que certas pressas criativas deram por caduca, mas sem a qual não saberíamos sacudir hoje a mediocridade a que a cacafonia do entretenimento e da publicidade nos amarram. Lugares como os museus locais, as bibliotecas, os grupos de promoção cultural, encontram-se espalhados por toda a parte e estão vivos, apesar das enormes dificuldades com que lutam quase sempre, a começar pela solidão e isolamento. Há que frequentá-los, interpelá-los, promover neles, e com eles, programas ajustados aos seus públicos de proximidade. Não é o circo, é mesmo o pão. O nosso de cada dia hoje, e ainda o de amanhã.

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