Planície heróica: resposta a Paulo Barriga

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Paulo Lima

antropólogo / investigador

Na sua Crónica da Cidade, de 22 de Dezembro de 2006, publicada no jornal “Correio Alentejo”, o jornalista Paulo Barriga insurge-se, num texto intitulado “Planície heróica”, contra a instalação em Portel de um centro para estudar o cante alentejano.
Em dois parágrafos entalados entre a necessidade da afirmação do Baixo Alentejo, a partir da designação das novas agências para o turismo que vão substituir as actuais regiões turísticas, e o elogio ao movimento BAAL 21, considera o jornalista Paulo Barriga que é ridículo instalar um centro destas características no distrito de Évora. Que isto será uma espoliação feita por estupores e traidores.
Não considero importante a forma, antes os conteúdos presentes na sua crónica. Porque de alguma forma sou o responsável teórico da ideia da criação deste centro em Portel, julgo que importa que as palavras do jornalista Paulo Barriga tenham uma resposta porque se fundam numa profunda ignorância do projecto em causa e da história, da cultura e da criação da identidade do território a que chamamos Alentejo. Nem é interessante explorar o título da sua crónica, retirado de um romance de Manuel Ribeiro, que este jornalista parece ou não ter lido ou, se o leu, não ter compreendido.
O projecto que a senhora ministra da Cultura apresentou, de forma muito genérica e simples, é um projecto para a salvaguarda do cante, mas não do chamado cante alentejano, o coral, antes das práticas poético-musicais e coreográficas da Região Histórica do Alentejo. O que a senhora ministra fez foi adequar a ideia à prática musical mais identitária do distrito que visitou, Beja. Acrescente-se que este projecto, que é pioneiro em Portugal, se deve ao dinamismo do actual delegado regional do Ministério da Cultura, dr. José Nascimento.
O que se quer instalar em Portel é, antes de mais, um arquivo fonográfico, subsidiário de arquivo nacional. E a par desta importante valência, terá um museu, ateliers e um centro de documentação. Projecto que já tem um espaço nobre e que já foi alvo de uma candidatura por parte da Câmara de Portel. Ora um projecto como este não procura centrar-se nos corais alentejanos, antes em toda a realidade musical urbana do Alentejo. Este projecto será consubstanciado com a construção de um Arquivo de Etnografia Transtagana <i>on-line</i>, onde se disponibilizará toda a informação sobre a Cultura popular da Região Histórica do Alentejo.
Este é o projecto a instalar na vila de Portel.
Mas o jornalista Paulo Barriga desconhece também outras coisas. Este projecto tem em vista criar outras infra-estruturas, que funcionem em rede, mas autonomamente, e, o mais importante, sustentadas: duas no Baixo Alentejo, vocacionadas para o movimento coral e para o improviso; duas no Alto Alentejo, vocacionadas para os instrumentos musicais e para o baile popular. Existem já, neste momento, contactos muito interessantes com uma autarquia do Baixo Alentejo para a instalação da estrutura ligada ao improviso.
Mas este projecto não é em torno da investigação, antes da conservação destas práticas. E aqui conservação é vista como dignificação e como criação de uma mais valia para esta região, no todo. Porque se quer potenciar esta riqueza cultural como arte do espectáculo, afirmando o Alentejo ao nível regional, nacional e internacional, pois que cada um destes locais, além da criação de propostas de espectáculo, será a porta aberta para a participação em festivais de raiz tradicional no Mediterrâneo e na Ibero-América.
Isto é, sumariamente, o projecto.
Mas importa corrigir o jornalista Paulo Barriga sobre o cante alentejano e sobre a identidade do Baixo Alentejo. E isto porque parece que Paulo Barriga não faz bem os trabalhos de casa e nem se procura inteirar da informação que a Fundação Terra-Mãe, onde colabora, disponibiliza no seu <i>site</i>.
Mas antes, duas coisas. E nelas eu estou muito à vontade. Fui a primeira pessoa a propor o cante alentejano a Património da Humanidade, o que curiosamente foi sustentado pela Câmara de Évora em finais da década de Noventa, e para esta anunciação até se fez um colóquio em 2001. E não recordo nenhum movimento anti-Évora à altura. E também já escrevi, criticamente, há muitos anos, sobre o Grupo de Cantares Regionais de Portel.
A questão da candidatura é um processo de dignidade. Mas tem atrás de si responsabilidades na criação de uma estratégia de conservação. Não é o preenchimento de um formulário na procura de uma visibilidade politico-cultural entre o nosso e o outro. Terá que ser muito mais. E, esse mais, são as pontes que urge construir.
O Grupo Coral de Cantares Regionais de Portel, o do passarinho e da cegonha, terá a qualidade que tiver e os objectivos deste grupo são claros: tornar o cante mais leve e acessível como espectáculo. Nunca houve, julgo, da parte desse grupo, uma procura de defesa dos cantos tradicionais, e que, até, tem sabido, quando quer, defender. Mas a discussão que Paulo Barriga traz poder-se-á estender a muitos outros grupos. Recordo-lhe a interpretação que muitos grupos fazem da canção tradicional portuguesa. O que o grupo de Portel teve foi sucesso numa canção particular, e que gerou um certo movimento de imitação, em particular na introdução de instrumentos. Mas esse movimento nunca conseguiu impor-se, até porque o último século levou a que se afastasse a parte instrumental do canto coral, o que provocou alguma reacção epidérmica contra os instrumentos no canto coral. E, também, porque muitos desses grupos não tinham a qualidade musical e presença em palco que o grupo de Portel soube construir.
E isto leva-nos para a divisão territorial do cante alentejano que Paulo Barriga faz pelos distritos de Évora e Beja. Pois que, sendo o canto alentejano do Baixo Alentejo, logo seria em Beja que deveria ser instalado o tal centro.
Baralhemos as coisas com a história, que importa conhecer.
No estudo do professor Ranita Nazaré, fruto de uma investigação de terreno, feita na década de 60, e cujos resultados estão disponíveis em qualquer livraria, este traça uma linha que tem Monte do Trigo e Monsaraz como pontos limites a Norte, e a Sul as serras algarvias. Daqui, posso concluir, que ser em Portel ou em Odemira o putativo centro, tal seria idêntico.
Mas, gostaria de lhe dizer algo mais. A história do cante alentejano está por fazer. E se Paulo Barriga lesse a bibliografia que o site da Fundação onde colabora disponibiliza, poderia ler o que Manuel Dias Nunes escreve na revista “A Tradição”, de Serpa, por volta de 1900, sobre os cantares. De forma espantosa, diz que estes ou são coreográficos ou descantes. E que para os dois, a companhia é a viola de arames, hoje chamada viola campaniça, é indispensável.
E já agora informo-o que o projecto que critica, está a preparar a edição dos textos de Manuel Dias Nunes, onde depois poderá ter acesso simples a toda esta informação.
Concluindo. A identidade do Alentejo é uma construção e uma tensão entre pontos fortes e menos fortes. Sobre um conjunto de ideias, fruto, em muito, da ideologia do Estado Novo, construímos os nossos Alentejos. Aliás, a Fundação onde colabora, também está a construir um Alentejo. E se me lembro do projecto arquitectónico a ser construído em Montemor, que fica no Alto Alentejo, tem por modelo de área urbana o largo pombalino de Porto Covo, que é no Baixo Alentejo. E nem sequer preciso de lhe recordar o <i>sui generis </i>da coisa.
Por fim, gostaria de lhe dizer algo mais: este projecto nasce da generosidade de uma autarquia, que a par de um investimento na cultura musical, quer generosamente partilhar os espólios que guarda. Espólios fundamentais para o entendimento da Região Histórica do Alentejo, que parece que Paulo Barriga desconhece. Esperamos que em breve possamos contribuir para a sua cultura. Generosamente, sem pilhagens, traições ou estupores.

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