Pessimista optimista

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Hugo Lança Silva

professor do ensino superior

<b>1. </b>Gosto particularmente de crises! Tenho a perfeita noção de que confessá-lo reforça a convicção da minha misantropia, mas já desisti de me esforçar para escamotear evidências! Depois da tempestade inicial, os momentos de crise despertam a nossa criatividade, namoram a nossa imaginação, fazendo emergir o melhor dos seres humanos. Ou o seu pior, porquanto as crises carregam consigo a deliciosa característica de nos tornar mais genuínos, mais verdadeiros, fazendo respirar a nossa verdadeira essência!
Quando o mundo e o país imergiriam numa crise, primeiro financeira e depois económica ou mesmo antes, em pleno reinado da crise do petróleo, com a óbvia preocupação dos lúcidos, mais que sentir o temor, olhei para os factos como uma tremenda oportunidade de encontrar novos e melhores caminhos, não necessariamente uma rota nova, mas os ajustamentos cruciais para a construção de um mundo melhor, mais justo, mais solidário, mais democrático!
Mas é feio um pessimista ter um assombro de optimismo e o ano que agora findou provou que os cépticos tinham mais razão do que aqueles que tinham fé em que os erros do passado seriam lições para o futuro!
Se há um ano atrás escrevi com optimismo, hoje sinto-me constrangido a reconhecer que muito ou nada de bom devemos esperar do último ano da década, mormente ao nível da política nacional, do governo ou desgoverno deste estranho país à beira mar plantado, mas que ninguém se deu ao trabalho de regar!
Fui um acérrimo defensor dos dois primeiros anos do Governo de Sócrates: quando Sócrates era um PM arrojado, com coragem para enfrentar os lobbys (peço desculpa por não conseguir escrever lóbies), com a determinação de assumir as reformas mais que urgentes na saúde, educação, na administração pública e na segurança social, a consagração de um rumo para a economia, a aposta decisiva nas novas energias e na tecnologia! Esse espírito reformista, a coragem de assumir rupturas, até me faziam esquecer as tolices na reforma das leis penais, o despeito pela cultura e o inqualificável ministro da Agricultura!
Mas efectivamente a democracia é o pior de todos os sistemas, com excepção de todos os outros, e Sócrates acossado por demasiados processos para um só homem, não resistiu à tentação de deixar de governar, para que tudo fique igual ao que sempre foi, nesta esperança muito lusitana de que algo de muito extraordinário realize o milagre de resolver o que parece não ter resolução!
Entusiasmaram-me os primeiros momentos de Manuela Ferreira Leite, quando a sua política de verdade ainda não se tinha transformado numa política da treta! Portugal precisa urgentemente de um político que fale a verdade ao país e os portugueses precisam desesperadamente de aceitar ouvir a verdade: somos um país pobre, muito atrasado culturalmente, o nosso sistema educativo envergonha-nos perante a Europa, temos uma economia em que apesar de alguns (poucos) oásis de excelência impera a mediocridade, não temos sistema de justiça e aceitamos encantados viver no domínio do pequeno favor e da grande cunha, na subserviência cobarde que caracteriza os imbecis! Incapazes de perceber que o Estado somos nós, construímos uma relação de amor-ódio com os poderes, exigindo tudo em troco de quase nada!
Sobretudo, somos um país historicamente pobre com a mania que é rico, perdendo-nos na insensatez irresponsável do novo riquismo, desbaratando os escassos recursos em despesas insanas e num sistema de mordomias e subsídio-dependência completamente incompatível com a nossa fraca capacidade para criar riqueza!
Se acredito que há solução para Portugal? Desculpem o optimismo de um pessimista, mas jamais vou abdicar de acreditar, de renunciar à capacidade para me iludir e fantasiar, apesar de bem ciente que a única coisa certa de uma ilusão é a consequente desilusão…

<b>2. </b>Ao nível regional, este poderá ser o primeiro ano do resto das nossas vidas! Apesar de alguns ainda não terem percebido, o PCP perdeu as eleições autárquicas, porque o concelho escolheu uma alternativa, um outro rumo, um novo caminho! Existiram 8.577 diferentes razões para a mudança, mas uma premissa terá sido válida para muitos: a necessidade de o poder não ser exercido à porta fechada, de ser partilhado por poucos, surdos para as opiniões de quem teimava em pensar diferente, ao abrigo da velha máxima de que quem não está comigo está contra mim! É inteligente repetir o que de bom foi feito: uma burrice repetir os erros do passado…

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