Perfil: Moonlight

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Sandra Serra

Sobre ela, dizia que gostava de passear na praia num dia de Primavera, de uma lareira a crepitar, de uma boa conversa entre amigos. “Sou uma romântica incurável, persistente, exigente”, confessava no seu perfil.
Escrevia sobre coisas do seu mundo, do mundo dos outros, do mundo da gente. Todos os dias chegava a casa à tardinha, depois das horas intermináveis no escritório, e sentava-se frente ao computador. Respirava fundo e começava a debitar as preocupações do dia, a apontar o dedo, a aventar soluções mais ou menos mágicas para os problemas que a afligiam. Dedicava palavras ao homem amado em segredo, parafraseava autores, sugeria este ou aquele acontecimento, indignava-se com o aumento do preço do leite e com a tirania do patrão, que por acaso era o homem que amava em segredo. Até que um dia, ao sentar-se frente ao computador com a manta sobre os joelhos, descobriu que alguém a lia, que alguém a ouvia. “Cara Moonlight, se eu fosse a si largava esse emprego. O homem não a merece”, escrevia alguém que assinava como anónimo. Moonligth, nome que escolhera para rematar os seus pensamentos, respondeu à voz anónima, agradecendo-lhe o comentário.
E no dia seguinte, saiu do escritório a correr, não a movia a ânsia de escrever coisas do seu mundo, inquietava-a saber tinha sido ouvida. E tinha.
Dali em diante, Moonligth passou a sentar-se frente ao computador todos os dias, nem sempre com a mesma inspiração, mas sempre convicta de que as palavras que desenhava tinham destinatários. Revelou-se a alguns, de outros não permitiu mais do que uma contestação, entrou em altercação com outros, com outros ainda fez das suas palavras arma de arremesso na luta contra o aumento do preço do leite.
O tempo passava e Moonligth sentia cada vez mais o eco das suas palavras. Tinha já vários aliados, pessoas que como ela gostavam de passear na praia em dias de Primavera, pessoas que como ela tinham amores e desamores, gostavam de música francesa, eram contra o fumo dos cigarros, e se insurgiam contra o aumento do leite. Certo dia, alguém que leu os seus escritos, perguntou-lhe directamente: “Quem és? Queres fazer parte de uma comissão de cidadãos para análise da problemática do aumento do preço do leite?”.
“Como? Comissão? Intervenção activa? Dar a cara? Tentar ajudar a resolver? Unir esforços com outros que não gostam de passear na praia e que são fumadores para resolver o problema do aumento do leite?!”, questionou-se Moonligth. Não lhe respondeu. Mudou de perfil. Agora era Moonshadow e empenhava-se na luta contra o aumento do preço do pão.
E o preço do leite continuava a aumentar.

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