Outra margem

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Luís Dargent

dirigente do CDS

Acabadas as aulas, antes de irmos para a praia, e no meio das nossas saídas para “enreleirar” fardos de palha, havia um ritual a cumprir. Chegávamos à estação antes das sete horas da manhã, lata de verdemãs numa mão, cana de pesca na outra, mochila às costas e chapéu na cabeça, comprávamos nervosamente o bilhete e apanhávamos a velha automotora, com bancos de madeira e um cheiro esquisito entranhado. Procurávamos um lugar cuja janela funcionasse, para nos aliviarmos do fedor e podermos fazer concursos de “escarradelas”, muito populares na era pré-vídeojogos.
À medida que nos íamos afastando de casa e dos pais, aumentava exponencialmente a tendência para a asneira, e sobretudo para se acenderem os primeiros cigarros. A viagem demorava uns intermináveis 20 minutos até à estação de Brinches, o que dava perfeitamente para fumar dois “paivantes”, pois o vício era insuportável. Deixávamos o comboio e dirigíamo-nos para o Guadiana e ficávamos a ver qual a melhor maneira de passar para a outra margem onde, toda a gente sabia, pescavam-se os maiores e melhores exemplares de bogas, espanhóis, barbos e, sobretudo, achigãs (espécie mais cobiçada). Depois de uma rápida avaliação individual, reunia-se o conselho para decidir qual o melhor sítio para passar, havendo uma exaustiva troca de pontos de vista, recorrendo-se sempre a uma segunda avaliação da profundidade e força da corrente. Entretanto, constatava-se que a situação não era para brincadeiras, mas que, com o passar das horas, certamente melhoraria, começando-se, resignadamente, a montar as canas de pesca e uma mesa de lerpa, que dentro de pouco tempo atraía todas as atenções. Com o entusiasmo da jogatina, imediatamente nos esquecíamos de posteriores avaliações da situação e o maldito vício das cartas vencia sempre a saudável actividade piscatória. Resultando o regresso sempre penoso, pois pesava-nos a falta de peixe e de dinheiro se as coisas corriam mal na batota.
Esta situação repetiu-se algumas vezes, até ao dia em que, embrenhados na discussão sobre a travessia do rio, alguém pegou sorrateiramente nas mochilas e as atirou com toda a sua força para a outra margem. Olhámos uns para os outros, e ainda não tínhamos esgotado o nosso reportório de insultos para com o autor da proeza, já estávamos todos do outro lado, iniciando um ciclo de pescarias verdadeiramente épico.
Só peço a Deus que dê a cada ministro e secretário de Estado a força, coragem e inteligência para mandar todas as mochilas para a outra margem…
Quero dedicar este artigo a todos os meus amigos de pescaria. Em especial ao meu pai, o mais paciente de todos…

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