Os velhos

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Vítor Encarnação

Já foram novos noutro tempo. Num tempo em que eles ainda não pensavam no tempo que havia de vir agarrado ao ocaso de cada existência.
(Quando somos novos parece que o tempo nunca há-de acabar).
A velhice era um tempo tão longe. Eles não deram por isso, foi um dia após outro, devagarinho. A barriga que vai crescendo, a careca que vai lentamente comendo o cabelo, um cabelo branco, depois outro, uma ruga solitária de uma arrelia, depois outra e ainda outra, o espelho a entrar no jogo todas as manhãs, o perto que vai ficando difuso dentro dos olhos, a carta de condução que se renova, o colesterol que se mete no sangue, a tensão que sobe, o sofá que adormece, o reumático que estala os ossos, o sexo que esmorece, o ar que falta a subir as escadas, os netos que nascem, os diabetes, o coração cansado, os comprimidos em jejum e após as refeições, a próstata, os netos que já fumam, a memória que se esboroa, o bilhete de identidade vitalício, a esclerose que se anuncia, a paciência que não se tinha, a afectividade que não se tinha, o tempo que nunca se tinha, a reforma, o vazio na alma, a sensação de inutilidade, de espera em vão.
Não deram por isso. Mas um dia acordaram e já eram velhos. Por magia. Negra.
Dali do banco, sentados naquelas travessas de madeira verde, ameias do seu castelo, berços das madrugadas e cama dos crepúsculos, eles observam o mundo que lhes resta. Vêem duas ruas, as pessoas que passam, os beirais dos telhados, o sino da igreja, a antiga taberna, a entrada da vila, a paragem das camionetas, as esplanadas cheias de gente nova. Vêem o movimento dos pardais novos e das mulheres maduras.
E vão comer as sopas. Alguns ainda bebem vinho. Outros estão no lar. E depois voltam e observam gente a dar importância a coisas sem importância nenhuma. Eles agora já sabem – tão tarde! – que há coisas que não têm importância nenhuma. Coisas que lhes roubaram noites de sono, os fizeram perder amigos, os amarguraram.
Coisas sem ponta por onde se lhes pegasse. Um tempo perdido. Mas o raio do livro da vida só se lê no fim da própria vida. Até lá vamos escrevendo os capítulos como se fôssemos imortais, como se fôssemos analfabetos.
Para lá da curva da estrada já não há nada. É o último capítulo. Aquele que explica os outros. Sem hipótese de reescrever a história, sem hipótese de mudar uma linha.
Agora, a vida deu-lhes uma boina nova e um baralho de cartas. É o jogo que lhes resta. Têm de aproveitar todos os trunfos.
Baralham e dão de novo.

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