Olhar para 2009, olhando para trás

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Carlos Monteverde

“Jamais haverá Ano Novo se continuarmos a copiar os erros dos Anos Velhos”. Terá sido Luís de Camões o autor desta frase, cada vez mais actual. De crise económica em crise económica, chegamos agora à crise financeira, que nos atinge a todos, pessoas e países, excepto, e provavelmente, àqueles que a provocaram.
Em Portugal, e com a crise, até os próprios comunistas ganharam mais um balão de oxigénio para subsistir, proporcionando ao impagável Bernardino Soares mais algumas das suas tiradas de humor, correndo o país o perigo de o ver partir de vez para a Coreia do Norte ou para Cuba, “democracias” por ele elogiadas e onde não teria motivos para fazer oposição aos respectivos governos, dado o “excelente nível de vida das suas populações”.
Mas deixando as patetices do jovem Bernardino, que pouco interessam, que gostaria eu que acontecesse em 2009, relacionado com a actual crise financeira? Que responsabilizassem os seus responsáveis! Aliás, já aqui escrevi algumas vezes sobre os salários obscenos dos financeiros, que em vez de governarem os nossos dinheiros se governaram com ele. O sr. Rendeiro e o sr. Oliveira e Costa a nível nacional, e o sr. Bernard Badoff da alta finança de Nova Iorque, são exemplos entre muitos. Não esquecendo o sr. Vítor Constâncio, que aufere um salário que ofende os desempregados e trabalhadores de menores recursos e afinal não fiscaliza o que devia fiscalizar. Feitas as contas, todos nós que comprámos os PPR(s) e demais aplicações financeiras para deduzir nos impostos e precaver a velhice, temos hoje menos dinheiro do que aquele que aplicámos. Os génios financeiros contratados por todos os bancos e principescamente pagos por eles, são afinal génios de marketing para sacar a massa dos incautos, através de propostas aliciantes, que afinal apenas servem para aumentar os lucros dos bancos e colocar em risco o dinheiro dos depositantes.
Claro que no futuro nada vai ser como até aqui. Vão ter de mudar as regras do jogo para voltar a confiança das pessoas nas instituições financeiras. Começando pela fiscalização do Estado e pela moralização dos salários e regalias do srs. Gestores. Pelo afastamento de todos aqueles que têm a sua responsabilidade em tudo o que se passou e que afinal de bom só tinham o salário. Pela devolução de toda a riqueza ilícita amealhada por estes senhores, que de modo algum podem sair incólumes desta roubalheira generalizada, que não pode deixar alguns sem o produto do trabalho de uma vida e outros a gozar o que roubaram.
Os portugueses deliciam-se a ler as “revistas cor-de-rosa”, onde geralmente aparecem estes senhores com sumptuosas casas, de alguma maneira construídas com o dinheiro de todos nós. Continuo, aliás, sem compreender o motivo que levou o Partido Socialista a não aprovar a Lei Anticorrupção de João Cravinho, que previa justamente a justificação das novas fortunas. Em Portugal , infelizmente, as grandes fortunas não precisam de ser justificadas. São fonte de poder e de admiração pelos subservientes.
Esperemos ainda que os chorudos avales concedidos pelo Estado à banca não sirvam para engordar gestores sem escrúpulos, mas efectivamente para salvaguardar os depósitos dos pequenos depositantes e o funcionamento do nosso sistema financeiro, nomeadamente no crédito às pequenas e médias empresas. Aquilo que já devia estar em marcha e ainda não vislumbramos é uma efectiva fiscalização dos nossos dinheiros públicos, agora alienados para evitar males piores, como falências em série e mais desemprego.
Esperemos que 2009 traga também mais competência e a selecção dos melhores nas nossas escolas. As recentes notícias da imprensa, relatando mais de 50 alunos e professores vítimas de violência nas escolas, e o vídeo onde alguns alunos ameaçam uma professora com uma pistola, ainda que de plástico, são elucidativas. Quando eu frequentei a escola pública nas décadas de 50 e 60, onde se aprendia muito mais, era impensável qualquer atitude colectiva de desrespeito para com os professores. Também não havia nessa altura nem eram necessários tantos professores sindicalistas, cujo resultado está claramente à vista. Muito menos era então imaginável que uma classe prestigiada e fundamental em qualquer país pudesse ser representada por um sr. Nogueira de atitudes farisaicas, cujo campo de trabalho parece ser a rua e que diz, dentro das suas limitações culturais, à ministra que se quer guerra vai ter guerra. Claro que já vai havendo alunos de pistolas, ainda que de plástico. Evidentemente que esta gente nunca vai querer ser avaliada, mas vão também surgindo cada vez mais escolas e professores sem medo da avaliação. Para se ser avaliado, tem de se saber. Que aliás também faz falta para se poder ensinar. E é isto que o barulho da rua nunca vai poder escamotear.
Dois mil e nove vai ser um ano de eleições. O Partido Socialista apresenta um bom candidato à Câmara de Beja, com provas já dadas de experiência autárquica. Que promete trazer alguma esperança de mudança a uma cidade, já de si pobre no meio da crise e que de facto ainda não capitalizou a sua localização geográfica em relação a Alqueva, ao porto de Sines, ao aeroporto que se anuncia para ser breve e às rodovias de que vai beneficiar. Esperemos que a diversidade de ideias traga mais benefícios e traga também mais gente para Beja.
A nível nacional, o país recebeu com alguma simpatia a eleição da dra. Ferreira Leite para líder laranja, relegando para último lugar o populismo e a mediocridade do “imbatível” Santana Lopes. Afinal, envergonhadamente, a senhora apresenta agora o “menino guerreiro” como candidato a Lisboa. A péssima prestação da senhora como ministra da Educação de Cavaco Silva é mesmo a sua imagem de marca. E a ética na política é mesmo o que menos importa. Também por aqui a crise veio para ficar, sendo que a senhora parece ter mesmo vontade de se ir embora. E o “menino guerreiro” vai ajudá-la, certamente.
Antes de acabar este ano de 2008, fui ver ao rejuvenescido Teatro Pax Júlia, o Coral da Cidade de Beja, orientado pelo Pedro Vasconcelos. Mulheres e homens desta cidade que a troco de nada, a não ser como acto de amor pela cultura, passam várias noites das suas vidas ensaiando as suas vozes, para nos oferecerem em pouco mais de uma hora clássicos musicais de rara beleza e qualidade.
É certamente desta beleza, deste desprendido contributo cultural e social que precisamos para 2009. Um ano que, apesar de tudo, desejo melhor para todos. Com a luta de cada um de nós contra a crise generalizada que todos anunciam. Única forma de sairmos vencedores.

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