O sustento

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Pedro Prista

professor do ensino superior

No final da próxima semana estará a debate em Odemira o desenvolvimento sustentável no Baixo Alentejo. A iniciativa parece fora de época e o assunto um chavão. Hoje, mais que desenvolver há que aguentar, e a sustentabilidade reduziu-se ao mero sustento. No horizonte da crise só cabe o que esteja à mão e à vista; à mão e à vista de cada um por si. Muito acima e muito longe, altos poderes destinam o mundo e uma prudência antiga aconselha a procurar abrigos.
É justamente por causa deste ânimo aviltante, e que só aprofunda a crise, que não podia ser mais oportuno avivar o debate em torno de uma escala territorial pequena e do seu desenvolvimento sustentável.
Fará em breve 20 anos que a Cimeira do Rio consagrou o imperativo da sustentabilidade do desenvolvimento e com ele a expressão popularizada pelo célebre “relatório Bruntland”. A ideia estava já, claro, anunciada, inscrita e activa no pensamento de muitos autores bem como na orientação de várias políticas internacionais, mas foi só entre 1987 e 1992 que ela alcançou a capacidade de unir objectivos e integrar reflexões sobre problemas que ficaram entretanto mais bem revelados, formulados e comunicados.
A ideia base consiste num princípio de bom senso: não comprometer com a vida de hoje as condições para a vida amanhã. Inicialmente centrada nos recursos naturais e particularmente os alimentares e energéticos, assume uma visão ecológica da natureza e uma responsabilidade intergeracional para toda a humanidade. Algo bem diferente da ingénua confiança no crescimento interminável e desigual e nas soluções tecnocientíficas providenciais e garantidas.
Das três bases em que assenta o desenvolvimento sustentável – ambiental, económica e social – a última permanece mais problemática. Não que as duas outras sejam simples ou unívocas, mas porque é sobre esta que menos domínio científico se alcançou e porque é na dimensão social que se reflecte uma dupla complexidade do problema: a dos próprios factos sociais em si e a da ser sob determinação social que se produz o conhecimento de todas as três, bem como a própria possibilidade política de se sair da insustentabilidade.
As ciências da sociedade vivem hoje acossadas ao mesmo tempo pela comercialização do saber e pela usurpação ideológica, mas elas são indispensáveis para que factores de sustentabilidade como a governança participativa ou a articulação entre escalas sócio-territoriais não se fiquem pelo simplismo, mas permitam traduzir formas crescentes de capacitação para um desenvolvimento sustentável, aberto aos outros e lúcido. Por outras palavras, para o sustento da vida humana de forma humanizada.
São grandes as exigências colocadas ao saber científico e à capacidade pública para pensar acertadamente. Que o efeito encantatório da palavra “sustentabilidade” não nos embale na ilusão de que traz consigo uma chave fácil para abrir o futuro, ou pior, que nos sirva de narcótico para aceitarmos sem dor que ele deixe de existir.

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Em Destaque

Últimas Notícias

Role para cima