O senhor que cumprimenta toda a gente

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Mariana Maia de Oliveira

estudante do ensino superior

Todos os dias, invariavelmente, lá está ele atrás do balcão de onde sempre vê desenrolar-se a vida. A barba meio por fazer, cronicamente suspensa naquele comprimento indeciso que nunca se compromete com a vontade de crescer nem com a necessidade de ser suprimido; os gestos ágeis treinados para providenciar os trocos, atender os pedidos, desenhar ordens, coordenar as operações entre a cozinha e o atendimento ao balcão. A imagem absolutamente vulgar, em suma, de uma pessoa desempenhando as suas funções com a máxima vulgaridade. Um homem existindo competentemente na sua tarefa de servir cafés, sandes mistas, torradas e doçaria da mais variada compleição.
Doseando as quantidades relativas de distracção e curiosidade no olhar (que sempre os olhares são uma combinação inexacta e variável de distracção e curiosidade, em que a predominância do primeiro nos torna mais atreitos a deixar escapar a verdadeira substância das coisas), há esta evidência interessantíssima que ressalta necessariamente à vista: o senhor que atende as pessoas ao balcão cumprimenta toda a gente. Sem excepção, nem mesmo aquela que se diz que vem confirmar a regra, todas as pessoas que se acercam do balcão para efectuar o seu gastronómico pedido com o máximo pragmatismo possível são invariavelmente presenteadas com um caloroso e gentil aperto de mão. Geralmente, a cumplicidade do gesto vem acompanhada de umas poucas palavras breves, um ‘como está’ de ocasião, um ‘tudo bem’ económico, um ‘então’ inquiridor; todos eles embrulhados de uma simpatia absolutamente inadvertida. E assim, pessoa após pessoa, cara após cara, vida após vida, nunca o senhor se priva de estender a mão ao reverendíssimo utente do estabelecimento, como se cada pessoa que ordenasse a um café distraído ou um pão de leite sem manteiga cortado ao meio fosse o mais alto dignitário de uma qualquer instituição merecedora das maiores e mais distintas honrarias. Alheio ao comprimento da fila de gente que espera nervosamente a sua vez de ser atendida, o senhor que cumprimenta toda a gente nunca abdica desse inalienável direito (dever?), o de fazer de cada pessoa o rei temporário daquele reino de nada. Deve de facto tratar-se de um raríssimo, lunático e incompreensível caso de simpatia congénita (não há, contudo, razão para alarmes – tudo indica que não deverá ser contagioso).
Outro olhar um pouco mais insurrecto também não poderá deixar de notar a disparidade de reacções àquele descontextualizado cumprimento. Uns exibindo um sorriso compreensivo e benevolente para com aquele homem que, só pode!, não deverá estar no uso inteiro da sua razão, outros com uma certa impaciência pela incomodidade evidente que representa a retribuição do gesto, muitos com desconfiança por aquela gratuita demonstração de simpatia – todos vão, de uma ou de outra maneira, correspondendo àquela sede cumprimentadora. Pensa-se a princípio que tudo se trata de uma boa disposição pontual, um dia que refulgiu com um brilho menos habitual, a felicidade de qualquer boa notícia, e ali está o homem com vontade de saudar o mundo inteiro, dando asas à sua alegria transpirante – e percebe-se, depois, que não. O senhor que cumprimenta toda a gente cumprimenta independentemente de tudo o resto, como se de um lado existisse o universo habitual onde acontecem coisas boas e más e onde estamos alternadamente tristes e contentes, e, de outro, totalmente separado desse, existisse o universo dos seus cumprimentos, onde, alheio às intermitências dos outros sentimentos, carrega aos ombros a sina de continuar cumprimentando com a mesma solicitude. Como só o vejo ali, quase que o suponho geneticamente pertencente àquele sítio (esta mania de pensarmos que as coisas deixam de existir quando deixamos de prestar-lhes atenção). Nada se sabe da sua vida para além daquele aperto de mão fugaz, e é quase com esforço que somos sensatamente forçados a admitir que também há-de ter a sua vida, os seus problemas e as suas dores, e que apesar de todos eles nunca se cansa de apertar a mão a uma fileira interminável de desconhecidos que nunca lhe exigiram que o fizesse.
Depois de também eu ter sorrido compreensivamente perante aquela simpatia de sanidade duvidosa, depois de também eu ter ruminado interiormente o aborrecimento de ter que tirar a mão do bolso para a estender em direcção àquela inconveniente gentileza, depois de também eu ter desconfiado daquele excesso de humanidade (a ousadia intolerável de um cumprimento sem razão nenhuma!), também eu percebi a forma verdadeiramente avassaladora como, aos poucos e sorrateiramente, nos vamos convertendo em pecinhas funcionais educadas para não sentir demasiadamente, formatadas para desconfiar avidamente de tudo, condicionadas para repudiar tudo o que não está dentro de uma norma que nos foi incutida. Na carapaça dura em que nos metemos todos os dias não cabe a possibilidade de alguém ser desinteressadamente simpático. De dentro desta desconfiança crónica com que julgamos talvez proteger-nos do mundo exterior, vamos lamentavelmente empobrecendo o interior.
O senhor que cumprimenta toda a gente não quer mais nada, de facto, do que cumprimentar toda a gente. As ocultas e pérfidas intenções por detrás do seu gesto parecem não ir mais longe do que a simples vontade de cumprimentar pessoas (a simpatia alheia, embora não o anule, torna o anonimato um pouco mais agradável). E em que espécie de sociedade doente estaremos a converter-nos, se nos surpreendemos a tomar por loucura um simples gesto de cordialidade (in)justificada…
O senhor que cumprimenta toda a gente parece pertencer a um tipo muito particular de homens – o das pessoas congenitamente simpáticas, alegres de nada, existindo modestamente em paz consigo próprias e em equilíbrio com o mundo. Pessoas que se dão sem pedir nada em troca, e que existem para nos lembrar subtilmente que ainda nem tudo sucumbe aos interesses rasteiros em volta dos quais gravitamos como cães esfomeados. Em tempos de crise, um obrigado ainda não custa dinheiro. Enquanto não existir imposto sobre os sorrisos, também não custa nada produzir um.
Boa tarde a todos.

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