O que terá mudado?

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

João Espinho

De forma algo estranha para alguns, como é o meu caso, ou numa atitude previsível e que não causou espanto a muitos, o Partido Socialista, mercê da sua abstenção, fez aprovar as Grandes Opções do Plano e Orçamento da Câmara Municipal de Beja para o ano de 2007.
Para mim foi estranha esta atitude por duas razões:
1º – Porque ao longo deste ano o PS de Beja, sempre que se pronunciava sobre as políticas levadas a cabo pelo executivo camarário, fazia-o de forma crítica, tendo na semana anterior à votação elevado o tom das críticas, apontando alguns dos males de que padece a câmara bejense.
2º – Também porque, estando o Partido Socialista na senda reformista, alterando profundamente legislação diversa existente, não me pareceu previsível que em Beja o partido do Governo viesse a contrariar estes caminhos e surgisse como mais uma força apoiante do <i>status quo</i>, do deixa andar ou do “<i>quanto pior, melhor</i>”.
Para aqueles a quem a abstenção socialista não foi novidade, o argumento, apesar de estranho, pode muito bem ser uma verdade: o PS está pouco preocupado com o que se passa em Beja e as suas aparições públicas são só para isso mesmo – aparecer e dizer que sobrevive.
Interessa, pois, saber o que terá mudado nesta cidade e no concelho para que o Partido Socialista tenha alterado as suas posições. E recorremos à memória e aos arquivos, para relembrar as críticas – muitas vezes demasiado azedas – que os então candidatos, e agora vereadores socialistas, fizeram às gestões CDU e ao estado em que se encontrava, há pouco mais de um ano, a cidade e o concelho.
O que será que o actual executivo comunista fez, aos olhos do PS/Beja, para que a “degradação” de algumas freguesias rurais deixasse de existir? É que, se estamos bem lembrados, nos périplos que efectuou por essas freguesias em campanha eleitoral, o candidato Carlos Figueiredo usou expressões como “sinto-me chocado”, “discriminação das freguesias socialistas” e “espaços abandonados”, por exemplo. Certamente que, devido a uma análise profunda, o PS de Beja chegou à conclusão que agora tudo está bem no mundo rural.
Que dizer das referências então feitas pelos candidatos socialistas ao estado do centro histórico da cidade, ao mau aproveitamento dos espaços culturais, às péssimas condições do Mercado Municipal e às imperfeições das obras do POLI’s? Certamente que, durante este ano, e na perspectiva socialista, tudo melhorou graças à boa vontade do novo executivo da Praça da República.
Certamente que a vereação socialista também vê agora – o que nunca antes vira – sinais muito positivos para atrair novos investimentos para o concelho, um apoio à fixação de pessoas e empresas e que já não há necessidade de suprir as lacunas que, no Verão de 2005 e durante a campanha eleitoral, existiam no campo do apoio social aos idosos e aos mais carenciados.
Ora, se olharmos para o que se passa na nossa cidade, podemos facilmente constatar que, de novo, só mesmo a cegueira daqueles que não querem ver o caminho que estamos a levar e que nos levará, mais cedo do que possamos imaginar, ao abandono, à desertificação, ao isolamento.
O PS de Beja, que agora se abstém de intervir positivamente nos destinos do concelho, não é, certamente, aquele que se mostrou ao eleitorado e que esconde as suas propostas de então, validando as soluções que sempre reprovou.
A ideia de que chumbar um orçamento é uma atitude irresponsável, não tem sustentabilidade. Como insustentável é a demissão dos vereadores socialistas das responsabilidades que lhes foram conferidas pelo voto de grande parte dos cidadãos do concelho de Beja. Aguardar pelo último ano deste mandato para, então sim, exercer o voto contrário e apresentar-se ao eleitorado como a força política alternativa é, para não dizer outra coisa, inqualificável. Tenho, ainda, a ténue esperança que muitos socialistas não se revejam nesta estratégia.

<b>Nota: </b>Chocou-me, e penso que a muitos outros, a morte do jovem António Braga de Carvalho. Mais um acidente que ceifa a vida a quem a vivia com tanta força e vontade. Fica-nos no espírito um sentimento de revolta por ver partir um jovem por quem tínhamos estima e admiração. A aceitação da morte não pode significar resignação, mas deve permitir-nos ver quão débil é a fronteira entre os dois lados da existência de cada um de nós.

Dado que só voltarei a esta coluna em 2007, aproveito a ocasião para desejar aos leitores do “Correio Alentejo” um Santo Natal e votos de que o Ano Novo nos traga, a todos, a concretização de alguns dos nossos sonhos.

<p align=’right’><b><i>(crónica igualmente publicada em
<a href=´http://www.pracadarepublicaembeja.net´ target=´_blank´ class=´texto´>http://www.pracadarepublicaembeja.net</a> )</i></b></p>

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