O progresso da decadência

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

José Nicolau Gonçalves

<i>“O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os carácteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há principio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.”</i>

<b>As Farpas (Maio de 1871)</b>

A situação de grave crise económica e financeira que Portugal vive tem vários responsáveis: governos, empresas, sociedade civil, consumidores, etc., sendo certo que os diferentes graus de responsabilidades não são iguais.
Devemos estar conscientes que temos contribuído para a ilusão de um bem-estar aparente, vivendo acima das nossas possibilidades e comprometendo o futuro, ignorando uma realidade bem diferente e brutal, de uma crise que já dura há pelo menos duas décadas.
Apesar deste cenário e das dificuldades extremas que ameaçam o futuro de Portugal, insistimos em fugir à realidade, iludidos em falsas expectativas e esperanças vãs. Teimamos em acreditar que ainda assim conseguiremos conquistar progresso, gastando e consumindo acima das nossas posses.
Não desejo ser alarmista, mas gostaria de lembrar que se não arrepiamos caminho as consequências serão dramáticas: some-se à situação actual uma crise social profunda, com consequências para todas as classes, empresas e instituições. Por isso, não podemos continuar a assistir, impávidos e serenos, ao teatro político que nos conduzirá ao progresso da decadência.
Temos a obrigação de ser mais exigentes com os governantes e com os diversos partidos políticos. As dívidas pública e externa que acumulamos não permitem que a irresponsabilidade nos consuma e que a dissimulação do gato e do rato resuma a acção dos políticos perante tão imperativas necessidades como é a aprovação do Orçamento de Estado para 2011 e anos seguintes.
Com honestidade devemos exigir mais, mas também comprometermo-nos com uma nova realidade, renunciando à ilusão. Se desejarmos outro progresso que não o da decadência, estamos obrigados a assumir sacrifícios nos próximos anos. Porque se não os fizermos e não exigirmos agora o rigor dos percursos difíceis, seremos, no futuro, confrontados com violentas soluções, sem alternativas e sem soberania.
– Tão simples que Eça de Queirós vaticinou conhecendo a natureza portuguesa, retratando o eterno presente de Portugal. A teimosia em não querer outro futuro.

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