O PCP, as autárquicas e a esquerda

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Elísio Estanque

Sociólogo

A memória e o estatuto que o Partido Comunista Português conquistou no Alentejo, antes e depois do 25 de Abril, são marcas indeléveis inscritas no património cultural e político do Alentejo. No entanto, se continuar a recusar aprender com os seus próprios erros, toda a sua experiência histórica se arrisca a perder significado.
O PCP, e com ele larga parte das estruturas organizadas e das instituições que controla, tornou-se uma máquina burocrática cada vez mais esvaziada de ideologia e de consciência crítica (isto é extensível a outros partidos, inclusive ao PS). Não digo que não haja formação política, e que alguns dos seus quadros não tenham qualidade. Muitos deles têm-na. Mas de um modo geral o debate interno e o respeito pela controvérsia, pela opinião contrária, etc., são reduzidos ao mínimo, ou inexistentes. Em contrapartida, as fidelidades são absolutas e incondicionais. E é em parte por isso que, quando os antigos militantes e quadros rompem com o partido, quando são quebradas as lealdades, quando alguém começa a ser verbalmente agredido e desrespeitado pelo partido, os representantes oficiais abandonam, desprezam e hostilizam ferozmente os seus ex-camaradas, tratando-os como traidores e aplicando-lhes a violência simbólica mais terrível. Essas práticas são expressão da cultura estalinista que ainda subsiste.
O domínio teórico do marxismo foi progressivamente sendo substituído pelas grandes afirmações de cariz moral, de “indignação” contra o sistema capitalista, e em defesa da classe trabalhadora. Porém, essa defesa tende a tornar-se mera retórica. Não há notícia de produção intelectual, de esforço de releitura de Marx (num momento em que o seu pensamento voltou à actualidade no quadro da actual crise) para que os seus quadros saibam do que falam quando criticam a natureza do capitalismo. Os contributos para actualização das (e reflexão sobre as) teorias de Marx não vêm do PC mas de alguns académicos e filósofos que a isso se têm dedicado (veja-se, por exemplo, as obras de Luc Boltanski, István Mészáros ou Ricardo Antunes), mas que os dirigentes comunistas ignoram ou desprezam.
Onde mandam, os comunistas tornaram-se numa rede de carreiristas e burocratas, no que, aliás, dada a entrega total às suas tarefas, são em geral extremamente eficientes (veja-se muitos sindicatos da CGTP). Essa eficácia é particularmente requintada quando se trata se exercer represálias e vinganças sobre os chamados “filhos desavindos” do partido, aqueles que, por um motivo ou por outro, em dado momento se fartam e batem com a porta. Existem, inclusive, casos de ex-autarcas ou ex-deputados/ dirigentes que, rompendo com o partido e a sua ortodoxia, se mantêm estranhamente cúmplices e silenciosos, mesmo após a sua saída. Por vezes, chegam até a fazer uma espécie de juramento de fidelidade, ou ainda – veja-se o ridículo da coisa – a assumir em público as “culpas” que privadamente sabem que não têm. É curioso, e intrigante, ver como alguns dos desiludidos do PC não conseguem tirar as lições dos seus próprios erros. Mesmo quando são vítimas de “purgas” internas e facadas nas costas, continuam a reproduzir as mesmas grelhas de leitura dogmáticas, vendo o mundo a preto e branco, dividindo tudo entre os bons e os maus, entre o “certo” e o “errado”. No meu blogue (bosociedade.blogspot.com) ocorreu recentemente uma discussão (a propósito das eleições autárquicas em Castro Verde) onde são patentes os ódios de morte entre antigos militantes que saíram do partido e que se conhecem desde há décadas. No mar de confusões em que muitos continuam a navegar (mesmo após a saída), não sabem o que defender nem criticar, mas alguns não conseguem abdicar do protagonismo nem das sempre inabaláveis “verdades” aprendidas no seio do partido.
Olhando as cores do mapa do Alentejo e comparando os resultados das autárquicas de 2009 com as de 2005, não consigo vislumbrar onde e em quê os incondicionais do PC/CDU encontram motivos de auto-contentamento. O bastião “vermelho” está a desaparecer. E no futuro, das duas uma: ou o PC muda e se abre, promovendo a renovação e o debate internos (o que seria bom para a democracia e para a esquerda portuguesa), ou persiste na velha ortodoxia que o levará à implosão (lenta mas irreversível) e, nesse caso, outras forças irão ocupar o seu lugar. No Alentejo como no país inteiro, talvez os movimentos associativos, juvenis, feministas, ambientalistas e as novas redes do “ciberespaço” nos possam fornecer pistas para reforçar a democracia participativa e repensar o futuro da esquerda.

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