O pagode dos preços da gasolina

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Carlos Monteverde

As pessoas lembram-se da liberalização dos preços da gasolina. O então ministro Catroga, igual aos outros ministros todos, quer no discurso demagogo quer no facto de nunca ter pago gasolina do seu bolso, liberalizou os preços dos combustíveis, prometendo aos portugueses que essa liberalização, pela livre concorrência, iria fazer baixar os preços.
Passados alguns anos, aí está o pagode, não da liberalização, mas da subida diária dos preços, quer seja a propósito dum tufão no México, da ameaça da Turquia aos curdos, da instabilidade no Iraque ou de um espirro mal dado pelo presidente Bush. Sobe o “barril” e sobem os preços no dia seguinte em Portugal, onde temos os combustíveis mais caros do mundo. Quando eventualmente baixa o “barril”, lá vem um ministro dizer que essa baixa só se fará repercutir depois de dois meses, que é o intervalo que vai entre a compra nos mercados internacionais e a chegada da gasolina aos postos de revenda.
Como já escrevi várias vezes, fui um dos muitos portugueses que apoiaram a formação desta maioria. Fundamentalmente porque havendo duas alternativas democráticas em Portugal, o que diferencia o socialismo democrático do PS do liberalismo mal definido do PSD serão as preocupações sociais do primeiro, no sentido de uma maior justiça social e mais equitativa distribuição da riqueza produzida. E apesar de no início do mandato o primeiro-ministro José Sócrates ter acabado com algumas regalias imorais de alguns gestores e políticos, o que é certo é que continua a alargar-se em Portugal o fosso entre pobres e ricos, pedindo-se sacrifícios a uns enquanto outros pavoneiam a sua riqueza e regalias obscenas
O aumento constante dos preços da gasolina, apesar da depreciação do dólar frente ao euro, mostra com clareza o desprezo com que continuam a ser tratados, todos aqueles que diariamente são obrigados a consumir combustíveis para poderem trabalhar e subsistir com cada vez menos recursos.
E isto porque os políticos que decidem estas coisas, e os senhores gestores da GALP e outras empresas, nunca tiveram de pagar um tostão do seu bolso para atestar um depósito. Parece-me que seria justo, nestes tempos difíceis em que são pedidos sacrifícios a todos, que fosse criada uma taxa moderadora para o consumo de combustíveis por parte dos senhores políticos e todos os gestores públicos. Até porque ninguém sabe qual o limite de despesa que estes senhores podem fazer, e para evitar casos vergonhosos como o do louvor que o senhor professor Freitas do Amaral deu ao motorista do seu ministério quando se demitiu, pela disponibilidade e amabilidade sempre demonstrada para o transporte dos seus familiares!!!
Aliás, não deixa de ser engraçada a curiosidade que a maioria das pessoas deita às habituais listas dos 100 homens mais ricos de Portugal, que as revistas gostam de publicar uma vez por ano. Eu gostava era que fosse obrigatório publicar ao lado os impostos que essa gente paga. Ficávamos assim a perceber um dos motivos das nossas desigualdades e a justiça do nosso sistema fiscal e retributivo.
A imprensa publicou nos últimos dias que 90 postos de gasolina fecharam no nosso país. Também publicou os muitos milhões de euros que perdemos para a Espanha, pelo facto de lá os combustíveis serem mais baratos. O que ninguém nos explica é o motivo dessa diferença de preços, a não ser que seja para pagar os obscenos salários e regalias dos gestores da GALP e outras empresas públicas, que ganham muito mais do que os gestores espanhóis e mesmo da maioria dos países europeus. Uma vergonha em que naturalmente o Governo tem as suas responsabilidades e a obrigação de mudar e moralizar.
E porque hoje falámos do petróleo, uma última palavra para essa figura grotesca da política mundial em que se vem transformando o sr. Hugo Chavez. Depois de tomar o poder pela força, o senhor Chávez fez-se eleger em eleições democráticas e preparava-se para se perpetuar no poder através de umas eleições em que perdeu à tangente, mas argumentando que os que não votaram iriam votar nele, segundo as sábias palavras deste populista fascizante. O que vem a seguir não é difícil de imaginar. Aliás, esta tentativa de perpetuação no poder é invenção do senhor Fidel Castro, de que o senhor Chávez e o senhor Putin são medíocres alunos. Medíocres mas não menos perigosos, com a agravante de utilizarem as riquezas naturais dos seus países, não para a melhoria do bem-estar dos seus povos, mas na especulação provocatória que leva ao aumento dos preços, agravando assim também eles, as condições de vida daqueles que dizem defender. Se a globalização existisse de facto, também eles, como outros, teriam de pedir desculpas àqueles que todos os dias têm de pagar mais caros os combustíveis. Mas a globalização não existe e, de facto, não são só os americanos os maus da fita.

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