O mês do turismo

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Pedro Prista

professor do ensino superior

É sempre pela Primavera que começa a soar a turismo. O tempo claro e ameno anseia veraneios, e a propaganda sabe isso. Acresce este mês a celebração do centenário da Repartição de Turismo e, numa altura em que o país olha com ansiedade a sua economia, muito se espera da grácil salvação que o “turismo” há muito promete trazer às contas desta terra soalheira e benigna.
A cada uma das três vezes que escrevi acima a palavra “turismo”, significou ela coisas diferentes: férias, política e indústria. E muito mais poderia ser dito com aquela mesma palavra, que de tão usada alcançou ao mesmo tempo o prestígio de grande acordo público e os embaraços da sua crescente imprecisão de sentido.
Nestes lados do Alentejo, o termo significa basicamente duas coisas que em parte se sobrepõem: vida de praia e acolhimento rústico, ambas figuras de “turismo” que, poupadas ao confronto com iniciativas de grande escala vão assegurando aqui um conjunto de equilíbrios, ambientais, económicos e sociais, oxalá sustentáveis. Equilíbrios acautelados pelas más experiências próximas em que o contraste entre os esplendores dos investimentos no luxo e os seus resultados em benefício geral alimentam ironias que mascaram mal outros ressentimentos mais fundos e inibem alternativas viáveis.
Por estas e outras razões se diz que o valor central do “turismo” é a hospitalidade. Ir em turismo a sítios supõe que eles interessem, sejam alcançáveis e frequentáveis, tudo coisas que geralmente implicam mundos locais, onde vive gente não turista, fazendo e refazendo os seus territórios e paisagens, e garantindo com isso aquilo que será depois “operado” como “destino” e como “produto”. Do modo como essas pessoas não turistas se envolverem na longa cadeia desta indústria depende não só muito do rendimento do negócio, como até a sua viabilidade, sustentação, e razão.
O turismo é uma indústria muito vulnerável e volúvel. Um caso mediático, o pânico de uma insegurança, seja civil ou sanitária, ocorrências climáticas irregulares, tudo pode desviar destinos e vitimar investimentos. As grandes operações imobiliárias a que quase todo o turismo directa ou indirectamente vai dar, podem transformar numa cadeia de ruínas sucessivas – financeiras, ambientais e sociais – os “paraísos” coloridos das brochuras publicitárias, e até mesmo quando o negócio corre bem, se esse sucesso depender do isolamento do enclave turístico no meio de territórios e sociedades arredadas para fora e para longe, o que é sempre de muito mau agoiro.
Por muitas razões a hospitalidade é importante para o turismo. Valor clássico das nossas sociedades mediterrânicas, ela situa o hóspede mas também o anfitrião, cultiva civilidade e cosmopolitismo, serve de medida e de balança às escalas do fenómeno. Na hospitalidade, quem recebe é quem está, e estar é muito mais do que abrir um “turismo”. É ter assumido um lugar, o mundo que ele significa, e a responsabilidade cívica que isso implica.

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