O Meu modo de vida!

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Hélder Guerreiro

Dizia um amigo: “O Estado Social e este modelo redistributivo não são mais do que a concessão que as classes mais ricas estão disponíveis a fazer (os que estão disponíveis para pagar) às classes mais baixas para que seja mantida uma paz social e o liberalismo de mercado”.
Do ponto de vista deste meu amigo, o que está mal no filme são as diferentes classes e o mercado, logo defende um país sem classes sociais e a inexistência de mercado livre. Proposta de Estado muito diferente do nosso modelo actual e com exemplos claros em países e tempos que não invejam ninguém.
Dizia uma amiga: “Esta coisa do Estado Social não faz sentido nenhum na medida em que me leva grande parte dos meus rendimentos e ninguém me garante se terei reforma, e nem utilizo por aí além o serviço nacional de saúde, pois quando preciso vou ao privado. Logo o que deveria acontecer era eu descontar para a minha própria reforma e não para a dos outros”.
Neste caso não é difícil perceber a natureza política do argumento, com isto não quero dizer que a minha amiga seja de direita, pois a perspectiva individual da auto-contribuição são claros posicionamentos contrários ao modelo social europeu e, como tal, ao modelo social português. Contrários ao nosso modo de vida, por assim dizer.
O Estado Social baseia-se num pressuposto simples de contribuição obrigatória (como qualquer política pública de natureza social) de todos, com base no seu rendimento individual, para um todo que será redistribuído (outra das condições da política pública) conforme as necessidades individuais de cada um. Esta redistribuição é feita de muitas formas, mas as suas expressões fundamentais são o serviço nacional de saúde, a segurança social e algumas formas de apoio na educação (acção social escolar) pública.
Muitos são os defeitos, não confirmados, que são apontados a este Estado Social (será caro? será pouco eficiente? terá pouca qualidade?). No entanto, algumas das virtudes, essas sim confirmadas, não são de menosprezar porque todos podemos, se tivermos dinheiro para isso, ir a médicos privados, mas as situações de urgência (lembram-se do INEM) são públicas e ninguém fica à porta de um hospital público numa situação de emergência. Se pensarmos no valor da escola pública e no que ela representa em termos de igualdade de oportunidades é difícil pensarmos num sistema educativo que seja só para alguns e muito menos poderemos pensar num país (modo de vida) sem apoio no desemprego, sem instituições de apoio à família acessíveis (creches, lares, centros de dia, apoio à deficiência) e sem apoio a situações de extrema pobreza.
O momento é de facto de crise (lembro-me do 11 de Setembro e como ficamos todos disponíveis para fazer concessões em termos de liberdades), mas este momento em particular não pode ser o álibi para nos dispormos a deitar fora um modelo baseado na solidariedade e na disponibilidade para o outro. Assistimos, de facto, a um momento excepcional em Portugal e na Europa, como que uma estranha tendência de reverência às bondosas regras do mercado em desfavor da política. Não nos iludamos, o mercado (empresas) não faz política, faz negócios (para bom entendedor…)! Tenho pensado neste estado de coisas e não me consigo lembrar de melhor expressão do que dizer, quase gritar, que “mesmo com as mãos rotas de vento, por mim não passará!”

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