O menino canta?

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Paulo Barriga

jornalista

Eu sabia muito bem que os havia, ou suspeitava com muita força, mas quando há 15 dias aqui escrevi que os traidores e os chicos-espertos do costume nos andavam a querer comer as papas na cabeça, nunca pensei que os marotos se revelassem assim tão marafados. Ou que o barrete lhes assentasse tão bem. Estava enganado! E mal a caravana passou, logo se fizeram escutar os primeiros ladrares. De Portel, da moderna capital do cante alentejano, nos chegou, em jeito de moca de Rio Maior, uma valente bordanada vibrada por um “antropólogo e investigador” chamado Paulo Lima.
Diz Lima, com espuma nos beiços e o pézinho a bater na laje, que: a) é ele o “responsável teórico” pela instalação em Portel do projecto para a salvaguarda do cante; b) que o cante não é uma prática musical exclusiva do Baixo Alentejo; c) que um jornalista chamado Paulo Barriga não percebe nadinha sobre o cante; d) e muito menos sobre a identidade do Baixo Alentejo que é, acredita ele, um mero fruto da Ideologia do Estado Novo. E justifica-se com alguns exemplos forçados e com citações mal amanhadas.
Defendi na minha última crónica a ideia de uma identidade do Baixo Alentejo, fundada, entre muitos outros aspectos, na mais visível das suas expressões culturais colectivas: o canto às vozes. Paulo Lima, pelo contrário, acredita que isso do Baixo Alentejo é coisa do Salazar, logo, recente, logo, reaccionária. Logo, quem defende o Baixo Alentejo é ligeiro quanto ao conhecimento da História desta região e seguidor ingénuo da política territorial do Estado Novo.
O que não deixa de ser uma afronta à memória de todos aqueles que, principalmente desde o advento do Constitucionalismo, desde que o “povo” começou a ter algum voto na matéria, têm proposto e defendido por sistema a separação entre o Baixo e o Alto Alentejo. E isto, em termos administrativos, com força de Lei e não apenas enquanto trinta e um de boca. Ou não conhecerá o bem entendido Paulo Lima, apenas a título de exemplo, os projectos de províncias de 1823 (que cria um Baixo Alentejo com Beja e Setúbal), o projecto de comarcas de 1827 (que cria a de Ourique, correspondente ao actual distrito de Beja, separada da de Évora, então designada Montes Claros) ou as Províncias em 1832 onde se agrupavam, numa só região, Faro e Beja?
Mas podemos ir muito mais longe no tempo quanto à História Regional do Alentejo. Já D. Dinis, em 1299, estabelecia duas comarcas para o Sul do território. Uma chamada Antre Tejo e Odiana, que abrangia todo o Sul com excepção da Margem Esquerda do Guadiana, onde foi criada comarca própria sob a designação de Moura e Serpa. E este exemplo remoto serve na perfeição para introduzir a questão do cante no mapa territorial do Alentejo. Paulo Lima diz que leu um estudo de campo do professor Ranita Nazaré, onde aprendeu que os pontos limites da existência do cante alentejano se situam em Monte do Trigo e em Monsaraz, a Norte, e nas serras algarvias, a Sul. Pelo que, conclui ele, “ser em Portel ou em Odemira o putativo centro tal seria idêntico”.
Nada mais estranho. O que Paulo Lima devia ter lido e concluído na obra do professor Ranita da Nazaré, ironicamente intitulada Música Tradicional Portuguesa – Cantares do Baixo Alentejo, (disponível integral e gratuitamente em www.instituto-camoes.pt) é que Monte do Trigo e Monsaraz ainda sentem a influência do cante que é predominante nas regiões planas para lá das serras. É tão ridículo fazer de Portel a “capital” do cante, volto a afirmá-lo, como fazer de Santo André a capital do fado. E Paulo Lima, no seu melhor trabalho, conseguiu seguir o fado até às portas de Santiago do Cacém. Ele também se cantava em Santo André, mas nunca deixou de ser a canção dos bairros operários de Lisboa. E lá tem a sua casa, em Alfama.
Voltando a D. Dinis e ao estabelecimento de uma comarca na Margem Esquerda do Guadiana. Paulo Lima também por lá andou, pelo menos em leituras. Andou a ler, diz ele, os textos de Manuel Dias Nunes publicados na viragem do século XIX para o século XX na revista “A Tradição”, que se imprimiu em Serpa. O antropólogo e investigador acha que eu não li os ditos artigos, embora cá para mim acredite piamente que foi ele que os não leu. Caso contrário, não os traria aqui. É que socorre-se ele de Dias Nunes para justificar a sua própria fraude.
Dias Nunes, em actualização livre, sobre “Os descantes”, cantes na via pública, quase exclusivos dos trabalhadores rurais: “Quem nunca tiver passado à margem esquerda do Guadiana, e não tiver permanecido durante alguns dias neste saudável e ubérrimo torrão do Alentejo, chamado Serpa, – berço nobilíssimo, que foi, de José Corrêa da Serra – é natural que desconheça o velho costume, genuinamente popular e acentuadamente transtagano, que esta vila mantém em todo o esplendor”.
Está a perceber Paulo Lima? Você está a furtar palavras de um serpense sobre uma prática ancestral da margem esquerda do Guadiana e do Baixo Alentejo que quer levar à socapa para Portel. E não percebe o ridículo da questão? É em Serpa que deve estar situado o centro de estudos e de salvaguarda do cante. Ou em Beja, que é o epicentro, as palavras são suas, da “prática musical mais identitária do distrito”.
E por falar em defesa do Baixo Alentejo enquanto região identitária. Não é o seu tão amado Dias Nunes que expõe em “A Tradição” quer uma recolha das “Danças populares do Baixo-Alentejo”, quer um “Cancioneiro popular do Baixo-Alentejo”? Paulo Lima não apenas está a contribuir pouco para a minha cultura, como parece querer continuar no seu próprio engano ou para o engano dos que o ainda vão patrocinando. Talvez tenha que lhe aconselhar a releitura de obras e de títulos de conferências e de artigos de pessoas que tanto diz estimar e que se debruçam sobre a cultura particular do Baixo Alentejo, nomeadamente sobre o cante alentejano: António Marvão, Joaquim Roque, Manuel Joaquim Delgado, JA Pombinho Júnior, Ranita da Nazaré…
E depois ainda há a questão da elevação do cante a Património Imaterial da Humanidade. Paulo Lima acha que, por ter sido o primeiro a lançar a bisca, é a única pessoa com conhecimento e moral para levar a candidatura avante. Paulo Lima é, de facto, uma pessoa interessada por estas coisas da etnografia e da memória colectiva, mas é de uma falta de humildade e de contenção que até aborrece. Eu também me poderia lembrar de candidatar a fogaça de Santa Maria da Feira ao que quer que fosse, mas ninguém me levaria muito a sério. Este também é o caso.
Anda o dito antropólogo a tentar convencer o povinho que aquilo que se vai candidatar não é o cante, mas antes “as práticas poético–musicais e coreográficas da Região Histórica do Alentejo”. Que grande mentira! Paulo Lima quer-nos convencer, porque certamente lhe dará algum jeito, que quando se fala em cante alentejano, também se fala em improvisos, em instrumentos e em bailos. O que é a maior das intrujices que tenho ouvido nos últimos tempos. Embora não deixe de ser evidente que existem outras práticas musicais no Alentejo que são irmãs de sangue do cante às vozes, também ele em tempos instrumental.
Mas quando falamos em cante alentejano, naquele que se quer elevar a Património da Humanidade, naquele que as pessoas reconhecem e identificam como nosso, tenho muita pena, mas estamos a falar deste cante que se canta em coro essencialmente no Baixo Alentejo. Aquele que está vivo e se canta nas tabernas, nas festas, nos encontros de amigos, espontaneamente, como que por inevitabilidade ou precisão. Aquele que, como diria Dias Nunes, corresponde a “uma necessidade psico-fisiológica, imposta pela eterna lei universal – o Amor”. E isto é coisa que Paulo Lima, por muitos livros que leia, jamais poderá sentir ou experimentar. Isto do cante nasce connosco e, desculpe lá, mas nem todos podemos ser baixo-alentejanos.

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