O último abraço ao Fausto Correia

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Carlos Monteverde

Faustinho, como sempre te tratei. Como é que se recebe um telefonema a dizer que morreu fisicamente o nosso melhor amigo? Na altura apenas soube chorar. São notícias que nunca queremos acreditar. Ainda por cima poucas horas depois de te ver na televisão num daqueles debates do parlamento europeu, desta vez sobre a imigração, onde me pareceste cansado, como me tinhas dito há pouco tempo que te sentias. Das viagens e do trabalho, das comissões como relator. Mas como não te cansavas da amizade e dos amigos, do teu dia a dia para a Pátria que servias, continuaste sempre em frente, e foste uma vez mais para Bruxelas, donde desta vez voltaste, como cantava o Adriano, numa caixa de pinho, ao aeroporto de Figo Maduro. Onde a Lurdes, os teus três filhos e os teus amigos mais chegados, te fomos esperar. E como nos doeu aquele silêncio de te ver ali envolto nas bandeiras de Coimbra e da tua Académica, sem ouvir a tua voz, sabendo que estavas ali e não estavas..
Naqueles longos minutos, recordei a nossa amizade de mais de 30 anos. A nossa luta pelos ideais em que sempre acreditámos. Os momentos que eu e tu não vamos esquecer.
E como o António Arnaut referiu nas bonitas palavras que te dirigiu, tu deixaste-nos uma herança moral que eu sinto o dever de testemunhar.
Iniciámos a nossa amizade na Coimbra dos anos Setenta, nas tertúlias do café Trianon, na militância do PS, e no nosso trabalho na agência ANOP.
Lembras-te da primeira sessão partidária em que falámos, na terra do também saudoso dr. Fernando Vale. Acabámos a noite na casa daquele Senhor deste país, fundador do PS na clandestinidade da Alemanha, que com a sua eloquência multifacetada, apadrinhou o nosso baptismo político, que tu prosseguiste com tanto brilhantismo e eu viria a trocar pelo exercício da minha profissão. Nunca mais vamos esquecer as coberturas jornalísticas que fizemos na zona centro, de várias eleições partidárias e presidenciais, entre outras, com o general Ramalho Eanes e com Mário Soares e Manuel Alegre. Lembras-te como as circunstâncias fizeram de nós guarda-costas ocasionais do camarada Mário Soares, primeiro em Tortozendo, quando militantes comunistas o quiseram agredir já dentro do carro de campanha. E depois em Viseu, quando alguns “retornados”, o injuriaram verbalmente na Praça de S. Mateus e também queriam agredí-lo, a propósito da descolonização. A nossa disponibilidade e coragem física não tinha limites e demos o que podíamos e sabíamos para que o PS fosse como foi, a primeira grande esperança e realidade democrática deste país.
Quando te ajudei como jornalista, entrevistámos várias figuras de relevo deste país, infelizmente também já desaparecidas. Entre outros, o dr. Mota Pinto, Mário Dionísio e o grande Miguel Torga, cuja dimensão humana e simplicidade no estar, nos marcaram de forma definitiva, cabendo-me realçar o carinho que o poeta nutria por ti, certamente pela percepção que Miguel Torga tinha das tuas qualidades humanas.
Tudo isto e tanto mais foram muitos anos, até que eu vim para o Alentejo trabalhar e tu foste para Lisboa, onde foste presidente da Lusa, da RDP, deputado na Assembleia, várias vezes secretário de Estado, e finalmente deputado em Bruxelas. Mantivemos a nossa amizade de perto e de longe, telefonando, almoçando e jantando quando podíamos. E falávamos sempre do nosso país e por vazes de nós. De quem dos dois tinha feito melhor opção de vida. Tu dizias que tinha sido eu porque eu fazia aquilo que aprendi na nossa Universidade de Coimbra. E porque tu te sentias cansado. Mas eu vi agora no teu funeral, onde esteve o país todo, que quem serve a pátria como tu fizeste, como fazem os soldados quando combatem causas patrióticas e justas, que não há nada mais nobre na vida do que dar a própria vida pelos outros. Deste-a por todos nós, pela tua família, pelos teus amigos, pela tua pátria, quando ias ainda nos 55 anos.
A tua herança moral são os amigos que deixaste e a obra que fizeste. Desde as Lojas do Cidadão que criaste, ao trabalho na Lusa e RDP, e como deputado da nação e europeu. Mas acima de tudo pelo teu dia a dia, em que ajudavas as pessoas, atendias o telefone a toda a gente, e a todos dizias que sim. Foi toda essa gente que te foi dizer adeus a Coimbra, a cidade que tu amavas e de que ias ser o próximo presidente da Câmara. E como disse magistralmente o Manuel Alegre, Coimbra estava ali toda contigo. Não precisaste de votos. Foste eleito por aclamação com amor e saudade.
E quiseste ainda, antes de partires fisicamente, juntar no Pavilhão da Académica, como só tu o poderias fazer, toda uma cidade, todo um governo, e os amigos de todo o país. Lá estavam o Jorge Sampaio, José Sócrates (que belo elogio te deixou), ministros e secretários de Estado, o histórico PS de Coimbra com o António Campos, o António Arnaut e o Manuel Alegre, o Jorge Coelho, o Almeida Santos, muitas outras figuras públicas e a malta de quem tanto gostavas, e que tanto gostava de ti.
Saíste de Coimbra menino onde brincaste nas ruas todas, e voltaste ainda moço pela estrada maior da vida, mas já não paraste como das outras vezes para palear no Trianon.
Foste ter, como disse o Arnaut, com o Fernando Vale, o António Portugal e o Miguel Torga. E vocês os quatro, que são do melhor que o Partido Socialista e este país tiveram, só podem estar num sítio bonito aí por cima. Pelo menos tão bonito como a obra que deixaram cá por baixo.
E tu, Faustinho, também nos deixaste a Lurdes, o Miguel, o Tó e o Zé. Vamos fazer por eles aquilo que tu fizeste sempre a todos os teus amigos. Atentos na amizade, na solidariedade, presentes e disponíveis. Sempre.
Eu e a Isabel, o Carlos Beja e a Sara, mais a Lurdes, vamos jantar no próximo Verão, como fazemos há tantos anos. E tu, podes crer, vais lá estar connosco.

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