O desensino

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Pedro Prista

professor do ensino superior

O chamado ano lectivo chega ao seu termo e a atenção pública ao ensino é espevitada pelo momento de olhar os resultados. Os “resultados”, são sobretudo as notas dos alunos e a entrada ou não no ensino superior. A comunicação social preveniu a sua agenda para esta rotina de inspecção pública ao desempenho das escolas e ao serviço prestado pelos seus professores. Este ano, o assunto acicata mais as curiosidades já que a vida do país está polarizada pela fobia da despesa e as escolas são muito vulneráveis à perspectiva vesga que a confunde com investimento.
É natural, e necessária até esta atenção pública ao ensino mas, neste período do ano em que ela converge intensamente nas escolas, há aspectos da vida educativa que revelam bem o quanto lhes são exteriores e determinantes e todavia pouco considerados.
Um dos factos que mais me tem marcado nestes anos em Odemira é o notável conjunto de professores que aqui tenho encontrado a todos os níveis de ensino, do básico até ao fim do secundário. Não os conheço todos, mas tenho assistido aqui ao desempenho pedagógico de profissionais exemplares, alguns mesmo cientistas laureados internacionalmente, escritores e investigadores de grande nível e em várias disciplinas. Para além dessas suas capacidades pessoais, sempre os vi empenhados em trazer as suas turmas para dimensões de vida intelectual que, para muitos alunos, são dramaticamente distantes das suas experiências de vida familiar e pessoal diárias. E não só distantes como postas à distancia também.
Em redor de todo este trabalho de ensino e formação, que vai do infantário ao 12º ano, não pára de crescer, e mais ainda agora que acaba o ano lectivo, a estranha acção de qualquer coisa que não sendo intencional nem organizada, corrói a formação de pessoas e desmancha trabalhos, como se houvesse nela uma missão de desensino.
Todos conhecemos o mau efeito de algumas ideias que fizeram moda: que o “sucesso” acontece ao indivíduo e se alcança por um truque que requer uma habilidade; que a excelência é uma glória pessoal de vedetas que as isenta do resto, ou que o mundo é maior mais longe que perto.
Mais difícil que galgar estes obstáculos é assegurar, sem dano para as liberdades de uma sociedade aberta, que o trabalho imenso de quem ensina se não esfume literalmente na cultura recreativa comercial e na sua celebração ébria juvenil à roda entre Verões e Carnavais.
Não que a festa, a alegria, os prazeres ou os consumos façam mal à educação, mas porque na falta de uma vida cultural pública e exterior à escola, que evoque, relembre e renove sentidos àquilo que se aprendeu no ano lectivo e para além dele, a escola pode ficar cumprida mas não fica realizada. Ser culto é frequentar a cultura, e não apenas tê-la visitado, mesmo com “sucesso” escolar, em tempos. Há alguns programas culturais e científicos para resolver isso, mas não chegam, nem chegam a tempo. No balanço do ensino, o desensino não conta, mas existe, e amargamente para muitos professores.

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