O cante como Património

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Rodeia Machado

técnico de segurança social

Na semana passada foi presente à reunião da Assembleia Municipal de Beja uma proposta, elaborada pelo presidente da Câmara Municipal de Beja, para que fosse aprovado o reconhecimento oficial do “cante” como património cultural imaterial de interesse Municipal.
Confesso que esta proposta é daquelas que me deu, e dá, imensa satisfação, na justa medida em que há muito tempo luto para que tal se consiga, não só a nível do concelho de Beja, mas de todo o Alentejo e sobretudo do país, para que a possamos candidatar à Unesco, que como se sabe é o organismo mundial que define em que contexto tal deve ser reconhecido.
Tal como é dito no texto submetido à Assembleia Municipal de Beja, e que foi aprovado por unanimidade, o “cante” é uma designação convencionada para uma expressão imaterial da cultura popular e vocal do sul de Portugal, com uma história complexa e ainda parcialmente desconhecida, apesar de alguns estudos provenientes de investigações sérias terem sido já produzidos ao longo das últimas décadas.
Convém aqui salientar que muito foi feito nos últimos anos para preservar este modo de cantar e de dizer o Alentejo, nomeadamente o levantamento gravado por Michel Giacometti (que antes do 25 de Abril de 1974 percorreu todo o Alentejo) e nos legou esse importante espólio que tão mal tratado tem sido pelas entidades ligadas à cultura, ou seja, os organismos dependentes do Ministério da Cultura.
Dizia ele, na altura, que muitas das origens do “cante” têm semelhanças com a forma de cantar da Córsega e que tal deveria ser estudado e aprofundado para que possamos falar com total segurança, ou pelo menos com alguma, daquilo que são as nossas raízes desta forma única de cantar.
O esforço que é feito por muitas associações, preservando no seu seio grupos de cantares alentejanos, é em meu entender um esforço meritório que deve continuar, mas sobretudo deve ser acarinhado por quem tem a responsabilidade e o dever de proteger as nossas tradições.
Conheço algumas dessas associações e homens e mulheres que as compõem e fazem parte desses grupos corais, e sei da sua enorme satisfação em cantar o Alentejo e aquilo que mais os “toca” nos seus sentimentos profundos. O de estar a contribuir para preservar aquilo que os nossos antepassados nos deixaram, numa transmissão oral que urge manter e incentivar.
Como exemplo daquilo que acabo de afirmar, direi que o grupo coral que representa os Bombeiros Voluntários de Beja é, manifestamente, um conjunto de homens que se esforça por levar bem alto o nome do concelho e da cidade de Beja. Nem todos são de Beja e daí a minha maior admiração por eles, na justa medida em que têm que se deslocar para “ensaiar” as modas que cantam, e sei que o fazem com o maior prazer.
Também como exemplo gostaria aqui de deixar este testemunho: numa deslocação a Estrasburgo no âmbito de uma “embaixada” do Alentejo, foi convidado um grupo coral alentejano, que fez as delícias dos presentes (eurodeputados de vários países), demonstrando como são importantes estas manifestações culturais.
Por tudo o que fica aqui afirmado, mas sobretudo por aquilo que é importante levantar, e é muito, tenho a certeza que temos todos que trabalhar para que efectivamente possamos criar as condições necessárias a uma eventual candidatura a património cultura imaterial de interesse mundial da Unesco.

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