O André

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Paulo Geraldo

professor de língua portuguesa

O André já cá não está. Já não brinca lá fora debaixo deste sol. Já não vem de manhã para a escola com o sorriso e os livros.
Já não o veremos fugir das funcionárias, com aquele ar malandro, pelos corredores fora. Não escreverá à D. Ana no S. Valentim do próximo ano, como tem feito por brincadeira. Nunca mais poderei ralhar com ele nas aulas.
O André era um dos nossos. Já chorámos por causa do André. Temos saudades dele. Era um dos nossos e partiu à nossa frente.
Para outro lugar.
Gostamos de ter, como tiveram sempre os nossos antepassados, a certeza firme de que a morte é apenas como mudar de casa. A esperança de que aqueles de quem gostámos – de quem gostamos – estão guardados para nós e nos esperam.
Noutro lugar. O André está noutro lugar. Com quem brincas tu agora, André?
Chegou ao fim do caminho a sorrir. O Almeno, que estava lá naquele sábado, contou que a última coisa que o André fez foi sorrir. No meio da dor da queda.
Quem vive a sorrir morre a sorrir.
Disse-me o professor Luís que é costume os bons morrerem cedo. O André era bom. Eu sei. Não tinha jeito para estudar, nem paciência para estar quieto numa aula durante muito tempo. Como tantos de nós…
Mas esforçava-se. Tentava.
Uma vez dei-lhe o conselho de não se sentar, nas aulas, à beira dos colegas com quem gostava mais de brincar e conversar. Disse-lhe que assim podia aprender mais coisas nas aulas.
Não sei se o André conseguiu realmente aprender mais coisas, mas, a partir desse dia, quase sempre se sentava sozinho, lá naquele lugar da sala catorze que para nós ficará sempre vazio.
E custava-lhe muito fazer isso. Eu sei.
O André tentava. E os bons são os que tentam sempre, os que querem melhorar ao menos um bocadinho.
O André não fazia tudo bem. Era preciso ralhar com ele muitas vezes.
Eu não faço tudo bem. Vocês fazem?
Mas gostávamos dele, assim como ele era. Alguns só agora é que estão a entender como gostavam dele.
É que só podemos gostar de pessoas com defeitos. Porque as pessoas sem defeitos não existem.
Eu ralhei muito com o André, porque às vezes temos de ralhar com as outras pessoas. Mas não deve ser à conta de nos estarem a incomodar. Deve ser para bem delas, porque gostamos delas e queremos que sejam melhores.
Nada de zangas. Ralhar, sim. Mas ralhar e gostar.

(O André foi meu aluno e meu amigo. Morreu aos 12 anos, na aldeia onde vivia, em consequência de uma queda de bicicleta. Eu, depois, fui para casa escrever isto…).

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