O 25 de Abril e uma sandes com o Zeca Afonso

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Carlos Monteverde

Em 1976, dois anos depois do 25 de Abril, convidámos o Zeca Afonso para cantar nos jardins da cidade de Coimbra, no âmbito das comemorações realizadas pela nossa Associação Académica. O Zeca chegou de noite, viola nas costas e revolução no peito, subiu ao palco, cantou e encantou os estudantes e a população de Coimbra, que sobrelotavam os jardins da Lusa Atenas. No fim, e questionado sobre o <i>cachet</i>, respondeu que ainda não tinha jantado e a multa eram umas sandes e umas cervejas, que fomos comer e beber ao velho Aeminium.
Tinha valido a pena o 25 de Abril, como disse o Rui Sousa Santos neste jornal a semana passada. O “Maio Maduro Maio” já se cantava em liberdade, mas os “Vampiros” nunca desistiram de chupar o sangue fresco da manada.
E no meio de tantas coisas para dizer, e de tanta patetice com que somos bombardeados diariamente pela imprensa, importa não deixar passar as que põem em causa a pureza e a dignidade do feito dos capitães de Abril.
Hoje sublinho a notícia do comerciante de Gaia, que há semanas e em desespero de causa, se barricou numa dependência bancária e ameaçou explodir uma bomba. Mel na sopa para os “correios da manhã” e “24 horas”, mais os repórteres da SIC e TVI, para alternar com as Floribelas e as Esmeraldas. Que não quiseram saber para nos explicar, porque é que um ex-emigrante regressa com as economias de toda uma vida de trabalho ao Portugal de Abril, investe essas economias num comércio e, desesperado e humilhado por falência, foi qual David contra Golias, à dependência que lhe facilitara os empréstimos, mas lhe dificultara uma solução com dignidade, na frieza cruel da Banca, que são o seu “banco” para emprestar e endividar, mas são os bancos das OPA’s para penhorar cegamente a quem não paga.
Quem duvida que este comerciante votou Salazar como o maior português? E esta é a nossa responsabilidade quando dizemos que o 25 de Abril valeu a pena. Ele tem que continuar a valer a pena para a maioria dos portugueses, como este comerciante. Naturalmente que também para os bancos. Mas eu penso que o 25 de Abril estará mais perto de uma banca com menos lucros e menos comerciantes e empresas a falir, que o contrário, e que tem aumentado as diferenças sociais que envergonham os ideais de Abril. E não podemos fechar os olhos para um lado e festejar mais um Abril para outro. As pessoas que votam em nós e nas nossas promessas dormem menos do que nós falamos e já o demonstraram muitas vezes. Mais do que homenagens, saibamos merecer a memória de homens como Salgueiro Maia.
E vamos à rábula sobre a licenciatura do nosso primeiro ministro, pasto da imprensa habitual a que se juntaram, desta vez, o “Público” e o “Expresso”. E eu gostava de testemunhar aqui que o 25 de Abril me apanhou no 4º ano do meu curso de medicina. Das 11 cadeiras desse ano, tinha feito oito até Abril. As três restantes foram feitas nos célebres trabalhos de grupo, já que os exames foram então considerados fascistas. Os estudantes “revolucionários” procuraram a facilidade que promoveu a mediocridade. Todos os que parasitavam há anos na Universidade nos mais diversos cursos, obtiveram o canudo sem ler nem escrever. Muitos destes são certamente responsáveis pela mediocridade do nosso ensino, em que a par de sucessivas reformas fracassadas, não se esqueceram regalias corporativas absurdas, por vezes ofensivas doutros portugueses. Serão também alguns destes que promoveram esta grosseira provocação ao primeiro-ministro, obrigando-o a uma degradante exposição televisiva com um interrogatório lamentável por parte do sr. José Alberto Carvalho. Era bom, a propósito, que os portugueses pudessem saber qual é o salário dos locutores da nossa televisão pública, quais as suas habilitações e porque motivo ganham mais que o próprio primeiro-ministro e o Presidente da República. E era bom que os portugueses soubessem como se progride nalgumas profissões, e o grau de dificuldade e de dignidade dalgumas progressões.
Porque a questão é esta. Quem são e o que fazem os detractores do eng.º José Sócrates? Este, convém lembrar, ganhou umas eleições livres com maioria absoluta e pela primeira vez desde o 25 de Abril teve a coragem de dizer ao país que o rei vai nu, e que já não é possível continuar a gastar mais do que produzimos. Aplicando reformas que, porventura, serão já tardias. E com a compreensão popular que as sondagens mostram. Com a oposição esperada dos “falsos engenheiros” nas mais variadas frentes, em que este país sempre foi fértil. Nas próximas eleições, que são a universidade real e popular, serão os portugueses a dizer, uma vez mais, quem vão licenciar, para orientar o destino do país.
De resto, o país assistiu emocionado ao regresso de Paulo Portas à liderança do PP. Que gosta de falar no horário de abertura dos telejornais. E por incrível que pareça, alguns ainda lá vão. Ver aquele sorriso largo e popular dizer que com ele vai haver oposição a sério. Com o treino que teve com Manuel Monteiro e Ribeiro e Castro, não ponho a menor dúvida. E um pouco à imagem de filme repetido, vemos com tristeza um partido que já teve Adelino Amaro da Costa, Freitas do Amaral e Adriano Moreira como figuras tutelares, reduzido a episódicas e pequenas salas, TV por perto e com os habituais amigos do menino da Moderna e do Jaguar.
Finalmente, a cidade de Beja começa a perceber que, passado o serôdio choradinho das comparações com Évora, há um futuro para o Baixo Alentejo. Já começaram as obras do Aeroporto, vai aumentar a refinaria de Sines, temos as várias potencialidades de Alqueva, fala-se no interesse de produtores de cinema na região, e certamente mais oportunidades que poderão trazer mais riqueza e emprego. Esperemos que as nossas gentes também apostem em Beja, como aliás já fizeram Leonel Cameirinha, Luís Serrano e outros nomes prestigiados da nossa cidade. Investindo mais no que é nosso do que vendermos as terras aos espanhóis. Porque para Beja ter um futuro promissor vai depender sempre mais de nós do que dos outros. Os deputados por Beja, o Governo Civil, a Câmara Municipal, os nossos comerciantes e industriais, todos nós, vamos ter de amarrar e lutar pelo futuro.
E com estes altos e baixos, não podemos desistir do nosso país. Eu gosto muito mais de apostar no futuro do que tirar fotografias ao passado. Mas por uma vez, e neste 25 de Abril, quem me dera voltar a comer uma sandes com o Zeca Afonso.

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Em Destaque

Últimas Notícias

Role para cima