Nova visão

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Hugo Lança Silva

professor do ensino superior

Quando a 11 de Outubro os bejenses votaram e mandaram para casa o PCP, depois de mais de três décadas de hegemonia vermelha na cidade de Beja, mais do que uma mera mudança, gritaram basta e exigiram rupturas!
Os bejenses estavam cansados de uma cidade mais ou menos arrumadinha, com festarolas por imperativos meramente eleitorais, de um interminável leque de queixume contra os que denominam de fariseus de direita, de uma total, patética, completa incapacidade de pensar a cidade; mais do que tudo isso, os muitos independentes que deram a cara e trabalho pelo projecto Beja Capital – sujeitando-se à baixeza e ao insulto de quem grita democracia sem nunca ter conseguido perceber o que é um democrata – agiram pela revolta de amar uma cidade em que se excluíam todos aquelas que ousavam pensar diferente! Mais do que a promiscuidade, a irresponsabilidade na gestão dos dinheiros públicos e a falta de visão, há muito que indignava o pensamento de que quem não está comigo é contra mim, a exclusão e o abandono de pessoas válidas, porque cometiam o crime capital de pensar diferente, de pensar pela sua própria cabeça.
Recordo hoje o estado de espírito da Beja Capital, porque me parece, que tão importante como resolver a irresponsabilidade financeira, é fazer um imenso esforço de união por uma causa, de recuperar pessoas e projectos ostracizados, de juntar a gente boa da nossa cidade num projecto comum, deixando claro, que dessa gente boa, obviamente que também fazem parte muitos comunistas!
Nunca fui daqueles que defende que ao Estado, seja central ou local, cabe a realização de todas as tarefas; antes pelo contrário, defendo um Estado forte, mas mínimo, um Estado com autoridade, mas que permite respirar a sociedade civil, porque é no trabalho destes que encontramos as mais belas virtudes! Mas se a sociedade civil está amorfa, se está dependente de interesses partidários ou imbuída de mesquinhez calculista, compete ao Estado a delicada tarefa de despertar a sociedade civil, provocando-a, convidando-a a reassumir o seu papel.
Urge, portanto, espevitar a infelizmente pequena e pouco desenvolvida, sociedade civil bejense; com a colaboração de todos – ou pelo menos naqueles que querem verdadeiramente o que é melhor para cidade – devemos lutar para retomar as boas práticas do passado: seja caiar o centro histórico com o apoio de moradores e empresas, realizar feiras sucessivas na Praça da República, recuperar a doce feira da doçaria conventual, o Beja Alternativa, voltar a fazer de forma coerente o Festival do Amor, salvar a RuralBeja, permitindo que esta seja realizada por quem sabe; porque uma cidade não se escreve apenas no passado, deve-se, tão depressa quanto possível, reconhecer a pertinência do azeite, em particular, e da agricultura, em geral, no desenvolvimento da região e criar espaços museológicos para evocar estas realidade, preparar a criação de um Congresso do Cante Alentejano, bem como acolher outras e bem mais inteligentes propostas, independentemente, de quem as subscreve.
Nunca subscrevi a expressão de que com o resultado das autárquicas chegou a democracia a Beja; o PCP ganhou muitas eleições democraticamente e várias vezes mereceu ganhar: entendi em 11 de Outubro que ganhou uma visão diferente da democracia, que coloca a cidade acima dos interesses dos partidos, numa lógica de abrangência! Embora sem nunca esquecer que ser abrangente não é pretender agradar a todos, até porque alguns perderam demasiado para terem prazer com o desenvolvimento da cidade; ser abrangente também é ter a coragem de fazer rupturas, de dar murros na mesa, de acabar com lobbies e interesses mesquinhos, de correr com todos aqueles que existem para serem empecilhos do desenvolvimento!

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