Notas da estação

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Pedro Prista

professor do ensino superior

Com o estrondo habitual, e na sequência que a ordem comercial determina para o Verão em Portugal, deflagra esta semana sobre o Alentejo atlântico mais um Festival Sudoeste. Hão-de chegar e partir em bem, se Deus quiser. O evento vem aqui acontecer há alguns anos já e segue viagem noutros “festivais”. A multidão, na sua vontade intensa de assistir ao extraordinário, e mais ou menos empurrada pelas coisas que toma, faz a sua festa e vai-se embora. O êxtase de massas precisa sobretudo de exaustão e mal deixa perceber se, apesar dos muitos artistas, chegará a acontecer ali qualquer facto culturalmente relevante ou não. O resto é contas.
Pouco tempo antes, ali ao lado, esteve a FACECO. Com a modéstia que a crise impôs, foi surpreendente a energia com que alguns sectores se apresentaram. O artesanato, que padece cronicamente do efeito redutor do seu próprio nome, teve uma presença maior e mais diversificada do que é habitual.
Objectos utilitários simples ou peças únicas de autor, peças de autor utilitárias ou objectos simples únicos, nada do que se encontrava ali tinha a ver com a cangalhada que atravanca as feiras de artesanato. Criativo e tradicional, cosmopolita e rústico, materialmente profundo e humanamente próximo, o artesanato mostrou não só a força de vidas locais que se afirmam como a importância do papel das organizações e dos seus programas de longo prazo.
Em breve, já a 8 de Setembro, a Festa da Nossa Senhora da Piedade virá, numa espécie de recolhimento íntimo local, fechar um ciclo que se inicia a 25 de Abril e marca a estação exuberante das actividades culturais. Houve os “Mastros”, o “Tassjazz” e a FACECO. Com o próximo início de mais um ano lectivo é inevitável ponderar a programação cultural no concelho.
Hoje em dia há oferta cultural disponível no país de muito elevada qualidade, e só impressiona por vezes que trabalhos de tanta exigência se proponham a preços tão exíguos para o esforço, risco e inspiração que requerem. Por outro lado, a escola não pode ocupar um quadrante tão vasto da formação pública, sem abrir no débil panorama cultural em seu redor todas as oportunidades ao alastrar do “desensino”.
Estão já instaladas algumas condições e dinâmicas promissoras, como bem se nota pelas “agendas culturais”, mas, sem o complemento de exigência e de ambição que falta, corre-se o risco de ver perpetuar-se uma rotina de festejos pitorescos em vez de se assistir à criação de um público local novo e mais capaz. Mais capaz de criar, mais capaz para a troca e para o diálogo com a cultura dos outros, mais selectivo perante as propostas pré-formatadas que lhe são impingidas pela indústria das excitações, e mais capaz de escolher por si próprio e de saber porquê. Ora não é a capacitação de uma sociedade que a eleva acima das pobrezas todas?
A cultura transforma o ensino em educação. E a educação é a base e o garante da “sustentabilidade” do desenvolvimento. Justamente, o assunto que estará em debate já no próximo mês de Outubro em Odemira.

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