À nossa!

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Maria Fernanda Romba

Pode haver uma razão especial. Mas também pode não haver nenhuma razão e, muito menos, uma razão que seja especial. A verdade é que, entre familiares ou amigos, é quase sempre à mesa que erguemos a taça ou o copo para celebrar essa bênção que nos deram sem que fosse preciso pedir, que é a vida. E depois das taças se tocarem, como se fosse cada um de nós que se tocasse e abraçasse, dizemos, quase em uníssono, de forma sonora – À nossa!!
Este “à nossa!” não significa apenas “à vida!”, já que aquilo em que pensamos sempre e às vezes verbalizamos é: “à nossa saúde!” Porque sem saúde ou com uma saúde precária, a vida deixa de ter graça. E muitas vezes não tem mesmo graça nenhuma. Nem sentido.
Esta forma de celebração vem confirmar aquilo que é por demais evidente, que é a importância que tem para cada um de nós a saúde, pese embora o facto de, nem sempre, tomarmos nas nossas mãos a responsabilidade de a preservarmos.
Vem isto a propósito da anunciada revisão constitucional proposta pelo líder do PSD que, a concretizar-se, viria alterar, significativamente, o direito à prestação de cuidados de saúde preconizado pelo Serviço Nacional de Saúde.
Estava meio Portugal a banhos, no gozo de merecidas férias, alheio aos fogos que devoram florestas e casas, alheio ao anúncio de mais um candidato à Presidência da República, este oriundo do PCP e que só alguns militantes do PCP conhecem; alheio ao processo da Casa Pia que parece estar, finalmente, a chegar ao fim, à beira do julgamento, embora não se saiba se à beira de se fazer justiça; alheio ao facto duma mulher iraniana, Sakineh, mãe de dois filhos pequenos, ter sido condenada à morte por apedrejamento; alheio ao facto dos jornais (não sei se a investigação) incriminarem Duarte Lima no assassinato de Rosalina Ribeiro, a companheira de Tomé Feteira (a amante, referem uns, a secretária, dizem outros); alheio ao desemprego que atinge taxas preocupantes mas que, tal como outras realidades em Portugal, é um paradoxo porque, ao mesmo tempo, há lugares que não são preenchidos à míngua de trabalhadores e a coisa é tão paradoxal e, também ela, tão preocupante, que outro dia deparei com um anúncio, numa grande superfície comercial que, em vez do tradicional “procura-se empregado(a)” rezava assim: “Se conhecer alguém que queira trabalhar, contacte-nos. Telefone…”
Estava meio Portugal a banhos, dizia, os corpos bronzeados, as roupas mais reduzidas realçando o bronzeado e os corpos, a noite feita em festas, festas e mais festas, que nos tornam ainda mais alheios a tudo o que se passa para além do meio metro de mundo que está à nossa volta, quando Pedro Passos Coelho resolveu interromper este santo remanso e sacudiu-nos, a todos, tão violentamente, que mais parecia um terramoto. Que tínhamos que pagar a saúde, ou melhor, o tratamento para a falta dela, de acordo com os rendimentos, blá-blá-blá-blá. A malta não gostou. Não só a que não pode pagar a saúde mas, sobretudo, a malta que tem mais rendimentos. Porque depois de andar nas festas todas, fica sem um tostão, que aquilo dá uma despesa bruta, não se pode ir a duas festas seguidas com o mesmo vestido e as mesmas sandálias, porque as revistas cor-de-rosa topam logo essas coisas e na semana seguinte vem lá tudo escarrapachado.
Sócrates também não gostou e zangou-se. De tal modo que, disse mesmo, não ia ceder a chantagens nem trocaria o Serviço Nacional de Saúde pelo Orçamento. Posto isto, anunciou-se outro terramoto, o da instabilidade política, com eleições à vista. Estava a coisa neste pé, com os cronistas da nossa praça a anteverem, como de costume, o pior dos cenários, quase estragando as férias a milhares de portugueses, quando o Presidente da República veio pôr tudo na ordem e lembrar ao líder do PSD que esse assunto não é para aqui chamado e, quando for para aqui chamado, será chamado por dois terços dos portugueses e não pela meia dúzia que se lembraram, agora, de pensar nisso.
Assim sendo, os portugueses podem regressar de férias descansados! À nossa!

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