Nossa Senhora da Piedade

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Pedro Prista

professor do ensino superior

A festa da N. Sª da Piedade que Odemira celebrou no início de Setembro, curiosamente a meio tempo entre a Páscoa e o Natal, marca o regresso da vila e do concelho à sua vida própria depois dos meses efusivos do Verão e dos seus veraneios.
A devoção a N. Sª da Piedade tem nesta terra uma expressão vincada mas a “piedade” em si mesma é muitas vezes a noção que distinguimos mal de outras, como a compaixão, ou seja, o sentir em nós o sofrimento do próximo, e a misericórdia enquanto apelo à clemência. O seu sentido baseia-se no reconhecimento do temor como sujeição absoluta a uma transcendência, e no apelo que fazemos a ela. É um sentimento religioso profundo porque o encontramos traduzido de modos muito diferentes em tempos e culturas diferentes, e porque obriga à divindade, sem cujo fundamento desapareceria no simples plano jurídico.
Nessas suas diferentes maneiras, da China ao Islão, da tragédia clássica ao calvinismo, a piedade remete sempre para a intuição de um equilíbrio fundamental cujo colapso, a acontecer, extinguiria tudo no caos. Um equilíbrio que parece impossível de definir com clareza, mas cujo sentimento não pode ser esquecido pela humanidade. Assim as sociedades o celebram, alinhando o terror que infunde assistir ao absoluto sofrimento do próximo, com o pavor abissal perante a ruptura irremissível de toda a ordem e a aniquilação total de tudo.
Quando os ciclos agrários articulavam a vida das sociedades com a da natureza, nesta parte do mundo, Setembro era um mês de balanços. Pagavam-se rendas, saldavam-se dívidas, faziam-se comparações, acertavam-se ajustes. A sociedade e a sua riqueza, à vista de todos e frente ao Inverno próximo, ponderava ao mesmo tempo o ano de trabalho, a sorte que coubera a cada um, e os equilíbrios que havia que assegurar para que a desmesura das desigualdades não franqueasse os limites da desumanidade, impiedosamente.
A redistribuição da riqueza é decerto um problema complexo e as suas soluções muito variadas e ínvias por vezes. Mas ela é imperativa e move-a o mesmo sentimento profundo e indesmentível que, frente aos seus abismos, acorda a humanidade para si mesma e a que chamamos “piedade”.
As grandes fortunas que preferem hoje advertir para a volatilidade dos seus capitais, ao contrário das outras que se reúnem para ponderar as formas de ajuda nesta situação de crise, bem poderiam meditar sobre esta festa a Nossa Senhora da Piedade. Por abstractas que pareçam aquelas voláteis fortunas, e nunca o são, requerem sempre um acto deliberado por parte dos seus titulares, assumido em liberdade, ou seja, perante as suas consciências. Estas, eximidas aos deveres de humanidade, aproximam-se e aproximam-nos perigosamente desses imprecisos limites da desmesura de que todos os sentidos da noção de “piedade” sempre nos guardaram.
É talvez uma mensagem vital para o mundo hoje, esta que Odemira lembra e celebra na procissão que faz à sua padroeira.

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