Não sou optimista!

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Hugo Lança Silva

professor do ensino superior

Não sou um optimista! Digo-o por apego à verdade, mas sem orgulho! Tenho mesmo alguma mágoa invejosa daqueles que têm a capacidade de pintar com cores belas o mais sombrio dos cenários! Esclareço este ponto, porque sempre sustentei que somos a soma de preconceitos, com os nossos vícios e vivências, que balizam as nossas visões do mundo. E, sem dúvida, que aquilo que somos, influencia a forma como analisamos o mundo que nos rodeia!
Vem tudo isto na sequência de uma intervenção minha no programa da Rádio Pax, “Conselho de Opinião”, onde se perspectivava o ano de 2008. Assumi na altura, para estranheza de muitos, que estou optimista para o ano que agora inauguramos.
Não vou escamotear que a crise na bolsa, a incerteza nas eleições americanas, a inexorável escalada do preço do petróleo e os constrangimentos das taxas de juro, podem causar perplexidades na economia, indesejáveis e inesperadas há poucos meses. Mas, nem estas evidências, que causam constrangimentos aos mais insignes economistas, me toldam o optimismo.
Também não ignoro que o ano não começou bem: a crise no BCP desnudou as deficiências das entidades de supervisão, fez-nos pensar na obscenidade de alguns salários dos gestores (embora, apenas me ofendam os vencimentos dos gestores públicos), colocou na ribalta o mais abjecto do clientelismo político! Por outro lado, o ano de 2008 começou por exibir a doença crónica que ataca a saúde do nosso país, expondo-nos um ministro da Saúde, desde há meses na lista dos excedentários, incapaz de explicar as alterações, algumas extremamente necessárias! Podia perder o meu optimismo nas páginas de alguma imprensa, que na procura do mais recente escândalo não perde a oportunidade de alarmar a população contra as debilidades do sistema de saúde, as mais das vezes sem preocupações de rigor na informação, com total despudor pelos interesses da população, que começa a perder a ultima réstia de confiança no Serviço Nacional de Saúde! Mas quero olhar o lado bom das coisas e chamar à colação a nova Lei do Tabaco, que apesar de ter uma péssima redacção, ser de dúbia interpretação, permitir abusos por parte de classes profissionais, ser fundamentalista e destratar os legítimos interesses de muitos pequeno empresários, faz de Portugal um país mais moderno e aparentemente saudável. E mais rico, tendo em conta os valores das coimas…
Um outro facto que reforça o meu entusiasmo é o novo aeroporto da Ota, situado em Alcochete. Sem ironias, inspira-me uma sociedade civil que teve a tenacidade e capacidade para inverter um erro histórico, vergando a intransigência de um primeiro-ministro que reina com maioria absoluta e sem oposição, ridicularizando um Mário Lino que se comporta como se na realidade ainda fosse um ministro! Claro que a súbita alteração numa obra com esta dimensão, nos pode fazer pensar na leviandade como os dinheiros públicos são disparatados neste país. Ou, para quem aprecia uma boa teoria da conspiração, na forma como interesses escusos determinam a forma como em Portugal se gasta o dinheiro dos nossos impostos!
Acredito que o facto de em 2009 existirem eleições fará de 2008 um bom ano. Lá para meio do ano o Governo vai receber uma remodelação e, sobretudo, o ano governativo vai caracterizar-se por evitar todas as medidas difíceis (muitos delas necessárias) e terminará com o primeiro aumento decente nos vencimentos dos funcionários públicos e uma aparência de redução nos impostos (1% no IVA é a minha premonição).
Mas, sobretudo, o meu optimismo prende-se com a nossa região. Também aqui, a proximidade das eleições nos vai oferecer um executivo mais dialogante (quiçá até o senhor presidente da Câmara aceite receber a Arte Pública e cheguem a um acordo, em que ambos os interesses fiquem satisfeitos) e, com toda a certeza, o mandato não termina sem uma qualquer obra emblemática. A exímia organização eleitoral do PCP, com toda a certeza, não está desatenta!
Este ano é ainda o ano do aeroporto de Beja. Sendo certo que não sabemos bem para que irá servir, com toda a certeza que trará algum desenvolvimento à região. Com sorte até a instalação de alguma fábrica, que combata a depressão na nossa ténue economia regional. Por outro lado, o Alqueva já dá água e conseguiu provar algo que muitos achavam um mito: é possível a agricultura regional ser rentável. Claro que foi necessário as terras serem vendidas a empresários estrangeiros, mas, olhando os campos que nos circundam, compreendemos que podemos fabricar azeite e vinho, invertendo o abandono da agricultura. Além disso, começa a emergir o “Alqueva túristico”: não me choca, muito antes pelo contrário, a aposta nas potencialidades turísticas do Baixo Alentejo, nem me melindra viver e trabalhar numa região que para outros é de lazer ao fim de semana! Antes uma população flutuante do que caminhar alegremente para a desertificação…

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