Não desistir de Abril

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Carlos Monteverde

Há algumas semanas, regressava a casa ao fim de um dia de trabalho e liguei o rádio do carro. Um exuberante locutor relatava um jogo de futebol particular entre Portugal e a Itália. Ele era a magia do Cristiano Ronaldo, ele era o virtuosismo do Quaresma, e pelo entusiasmo do locutor ia sempre ser golo, mas nunca foi. Portugal humilhava a Itália. Logo a seguir, a Itália marcou dois golos ao virtuosismo e à magia, e o locutor ficou sem fala. Esta é uma das imagens deste país que faz 34 anos de Abril.
Também há pouco tempo, num dos poucos fins de semana em que não tive de trabalhar, fiquei de manhã a ler na cama e a ouvir a TSF. O locutor anunciava as três músicas seguintes para os ouvintes. Vinham aí a Vanessa da Mata, a Maria Betânia e o Roberto Carlos. Num país que tem o Zeca Afonso, o Sérgio Godinho, o Jorge Palma, o Rui Veloso e tantos outros, o sr. locutor dava-nos só música brasileira. E no fim do “pacote”, o rapaz da locução tinha uma boa notícia para nos dar. O sr. Scolari tinha resolvido continuar a ser seleccionador nacional, (e a assegurar os seus 200 000 euros de salário, que mais ninguém lhe paga). Aqui tive de mudar de estação, pois como se diz na gíria, não há pachorra para ouvir esta gente, que não respeita e ajuda a destruir a nossa cultura e os nossos valores.
É uma verdade que há cada vez menos portugueses com vontade de festejar Abril na rua. Na madrugada da Revolução, eu estudava em Coimbra e como todos, enchi-me de alegria, enchi-me de rua e enchi-me de esperanças. Já lá vão 34 anos, e de crise em crise renovada, de sacrifícios constantes pedidos aos do costume, enquanto outros também do costume, ostentam opulências obscenas, há cada vez menos alegria e esperança, e volta a haver alguma rua, embora por vezes perversamente.
De Abril, esperava-se para os portugueses melhor saúde e educação. Já aqui falei sobre saúde e espero que a nomeação da ministra Ana Jorge retome o caminho do Serviço Nacional de Saúde, e da defesa das carreiras médicas, progressivamente destruídas, de Leonor Beleza a Correia de Campos. Quanto à educação, que é o espelho da maioria dos insucessos deste país, esperemos que a perseverança da actual ministra, não seja sacrificada ao populismo da rua, das camionetas e da mediocridade. Os pais que leram alguns dos cartazes da “grandiosa manifestação”, que indignou a maioria dos portugueses, não podem deixar de ficar apreensivos e perguntar se podem ser os autores de frases agressivas e a roçar o ordinarismo, os educadores dos seus filhos. Dá que pensar se uma profissão que tem tantos e respeitados profissionais, pode ser manchada por frases e cartazes irresponsáveis e eticamente reprováveis. E convém lembrar ao sr. Mário Nogueira, que depois de uma negociação não há vitória de um dos lados, mas acordos bilaterais, e que o bom senso nestas ocasiões é fundamental, para que a escola, que é de todos os portugueses, possa de uma vez por todas inverter o seu caminho. Porque a grande verdade, que ninguém ignora e revolta os portugueses, é que tudo está mal, quando o produto final que sai das nossas escolas não orgulha ninguém. E não contribui para a melhoria cultural dos nossos jovens. Sendo que os responsáveis não são certamente os outros, mas somos todos nós entre classe política, professores, pais e alunos. Era bom que se fizesse menos barulho, se cooperasse mais, e que o trabalho e a responsabilidade gerassem um produto final de melhor qualidade. O futuro deste país ficava certamente a ganhar.
E um dos exemplos de mau produto saído das nossas escolas, é certamente o dr. Alberto João da Madeira, autor de constantes insultos e provocações a tudo e a todos. Desde o sr. Silva e o sr. Pinto Monteiro, à última lamentável referência ao “Bando de Loucos”, que são os deputados eleitos pelo povo da Madeira. Infelizmente, alguns dos nossos políticos com percurso de seriedade reconhecida, não resistiram, por motivos diversos, a ir à Madeira prestar vassalagem a um político que deveria ser por muitas das suas afirmações, um caso de tribunal. Aconteceu com Marques Mendes, que depois de não ceder nas eleições autárquicas aos autarcas com problemas com a justiça, acabou por ir ao chão da Lagoa, misturar-se com as “ponchas” do dr. Jardim. Seguiu-se Jaime Gama, com elogios ao cavalheiro, o que deixou incrédulos os militantes do PS. Agora é o próprio Presidente da República, até aqui com um mandato pautado pela isenção e sensatez, que aceita ir à Madeira receber os “Bandos de Loucos” num qualquer hotel, como se estivesse na Cuba do ditador Fidel, ou na Venezuela do populista Chavez. Porque a grande verdade, é que para além da “obra” dos viadutos e túneis do dr. Jardim, mais de 20% da população da Madeira, ou seja, um em cada cinco madeirenses, vive no limiar da pobreza. E isso vem levantar sérias dúvidas sobre a maneira como foram aplicados os dinheiros públicos na região, e se é mais importante fazer obras para ganhar eleições, ou melhorar as condições de vida das populações.
Mas sobre isto, a nossa televisão e a nossa rádio não perdem tempo. Preferem passar vezes sem conta as grosserias do dr. Jardim ou do sr. Pinto da Costa, que ficámos agora a saber, que apesar de constituído arguido, confia mais na “Justiça Divina”.
E os nossos jovens licenciados continuam à procura do primeiro emprego, o pagode do preço dos combustíveis continua, e as multinacionais continuam a brincar com o país, fechando fábricas depois dos lucros, enquanto o dr. Durão Barroso procura garantir outro mandato.
Por isso, quando vamos fazer 34 anos de Abril, o desejo que fica é que é preciso lembrar Abril, é preciso construir Abril, para podermos voltar à rua comemorar a Revolução dos Cravos. Num país mais justo e mais solidário, digno da coragem dos militares de Abril.

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