Nem pão nem bolo nem massa das popias

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

António Lúcio

director da Rádio Pax

Hoje, seis de Junho de dois mil e oito às vinte e trinta, sexta-feira.
Acabei de jantar e agora estou sentado à mesa junto da janela do quarto que transformámos em escritório, sozinho no silêncio da casa, ouvindo-me respirar, televisão apagada, os quadros calados, fotografias na parede branca que escurece com as horas, os livros, muitos livros em sentido nas prateleiras da estante (arrumados desordenadamente). Os meus filhos fora e a casa ainda mais vazia. Não chove mas o bailado descompassado do limoeiro da vizinha diz-me que há vento lá fora. Abro um pouco a janela. O limoeiro da vizinha não mente. Deixo entrar o som dos automóveis, o ladrar de um cão, dois homens falam alto, lá em baixo, discutem por qualquer coisa mas eu não entendo e volto a fechar a janela. Murmuro para mim:
– Tempo de merda!
Ora chove, ora faz sol, não é Inverno, nem Verão, nem Primavera, nem Outono, nem pão nem bolo nem massa das popias.
– Tempo de merda.
O meu amigo Zé Baril sempre com esta frase, a meio de uma conversa, qualquer que fosse a conversa, ele:
– Não é pão nem bolo nem massa das popias.
E eu:
– Porquê?
– É pá, porque sim, porque não gosto dos Beatles! Os Stones são melhores músicos.
Ele que vestia blaser, calcinha vincada, sapatinho de verniz, e de quando em quando gravata pendurada, preferia os Roling Stones aos Beatles.
– O Ringo não é pão nem bolo nem massa das popias! Achas que o gajo sabe tocar, tu?
Eu, que amarrotava as calças de ganga antes de as vestir, usava t-shirt e calçava ténis preferia os Beatles aos Roling Stones. Vá-se lá entender esta incoerência de estilos e gostos!
Tenho saudades de ti, Zé! Saudades das nossas conversas pela noite dentro, das férias em Monte Gordo, saudades da nossa cumplicidade, dos nossos segredos, da nossa amizade. Amizade verdadeira. Foste um grande amigo, Zé, que o destino ou sei lá o quê se encarregou de roubar. Daqueles amigos que nos aquecem a alma com uma simples palmada nas costas. Gostava que estivesses aqui.
– Um dia vamos a Inglaterra!
Tínhamos combinado ir juntos à terra dos meus Beatles e dos teus Rolling Stones, mas, como diz a canção, tu não cumpriste e faltaste ao prometido. Merda, Zé, tu sempre cumpriste, nunca faltaste ao prometido, nunca, estiveste sempre presente, sempre! Mas também há sempre uma primeira vez para tudo não é, companheiro? Tu que amavas a vida e a vida a trair-te.
– Os Beatles não são pão nem bolo nem massa das popias.
Vê tu as voltas do destino ou sei lá o quê, logo morreres num acidente de carro, carro encarnado, Benfica, tu que sempre foste do Sporting, tu que nunca gostaste de conduzir, insensato. Vou ver sinónimos de insensato e levas com eles em cima para aprenderes a não fazer isso aos teus amigos!
A propósito de amigos, Zé, há dias fui almoçar com o Chico, o Hélder, o Jorge e o Zé do Talho e falámos de ti, foi como se estivesses ali, à mesa connosco, a rir connosco e, se calhar, estavas mesmo. Como deves imaginar o Jorge chorou, chora sempre. Desculpa a brincadeira, mas não deixa de ser engraçado ver um polícia com um metro e oitenta e cinco a chorar. Eu não chorei, Zé, nem quando te vi pálido, incapaz de falar, pálpebras fechadas, boca sem cor, à volta mulheres desconhecidas vestidas de preto, a chorar, os teus irmãos, o teu pai, a tua mãe que me veio abraçar mal entrei na casa pequena e fria onde tu estavas, estendido, imóvel. Lá fora homens de mãos nos bolsos e a fumar. O tempo estava triste, as árvores estavam tristes, o som do sino, na torre da igreja, também triste mas eu não chorei. O tempo tinha terminado para ti e eu não queria chorar, eu não queria chorar. Eu só queria que nada daquilo fosse verdade, Zé. Tu não merecias, tu amavas viver, tu amavas a vida. Amavas a vida e a vida a trair-te.
Agora sim uma lágrima a ameaçar e eu a abrir novamente a janela para isto passar. Os dois homens continuam a falar alto, lá em baixo, discutem por qualquer coisa mas eu não entendo. Estou a considerar ir à rua, dizer-lhes das boas, mas não tenho coragem. Se fosses tu, Zé:
– Ó vocês que fumam, isso não é pão nem bolo nem massa das popias.

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