“…nada me faltará”

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Luís Dargent

dirigente do CDS

Deus tem várias, e curiosas, maneiras de se manifestar. Pode ser tranquilamente numa música de Paul Simon, fulgurantemente numa finta de Cristiano Ronaldo, atormentadamente num quadro de Van Gogh, assertivamente num filme de Clint Eastwood, sublimemente numa “verónica” de Morante e em muitas outras situações cuja menção só serviria para exibir de forma alarve a minha pobre erudição. A toda esta gente reconheço, sem grande esforço, uma superioridade que acabo sempre por atribuir a um toque divino, quase esquecendo o enorme trabalho desenvolvido por cada um no sentido de não o desperdiçar, como tantos outros fizeram, fazem e farão. É talvez esta conjugação, entre o prazer que proporcionam aos meus sentidos e o esforço colossal que pressinto inerente ao virtuosismo que manifestam, que apazigua os meus instintos reivindicativos perante o Criador, e tem calado a minha revolta contra esta tão pouco equitativa distribuição de talentos, bem com fama e fortuna inerentes (Van Gogh teve de esperar).
No entanto, recentemente, todas estas minhas convicções viram-se profundamente abaladas por um artigo de jornal, publicado a 7 de Julho e da autoria de Maria José Nogueira Pinto. Apesar de termos militado alguns anos no mesmo partido, nunca convivi com esta senhora e as apreciações que fiz da sua pessoa tinham a distância de alguns discursos em congressos, participações televisivas e artigos de jornais. A avaliação que fazia, sendo certamente muito positiva, não antecipava de forma alguma a violência com que me atingiu tudo o que li naquele artigo (de leitura absolutamente indispensável). A coragem e o desassombro alicerçados por uma fé inultrapassável levam-na a encarar de frente a morte e a dizer, invocando João Paulo II, não ter medo. O desprendimento que provêm de uma confiança cega na divina providência, perpassa em cada uma das linhas daquele artigo e resume-se na frase: “O Senhor é meu pastor nada me faltará”. É o testemunho de uma vida sem desperdício, ao serviço do próximo que reconhece os valores da generosidade, do respeito pela diferença, do trabalho e sobretudo da família.
A superioridade destes princípios de vida é, para mim, tão grande e evidente, quase esmagadora, acho que Deus neste caso foi muito injusto, pois coloca-me uma fasquia de tal maneira alta, que me sinto envergonhado ao pensar no que me falta para poder dizer: “O Senhor é meu pastor nada me faltará!”…

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