Mundo (de) cão

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

Sandra Serra

<i><b>Ou epitáfio de um cão amarrado numa galeria de arte onde foi deixado a definhar até à morte por um suposto “artista” *</b></i>

Não tenho nome. Não tenho dono. Já tive, mas agora não. Vivi nas ruas durante algum tempo, depois do meu dono me ter fechado a porta da rua para nunca mais a abrir – nunca percebi a razão, talvez a porta tivesse algum problema no ferrolho? O certo é que durante algum tempo vagueei pelas ruas. Fui enxotado muitas vezes, ignorado outras tantas. Carinhos poucos. Restos alguns que saquei dos caixotes do lixo (é incrível o que os humanos deitam fora!). Ainda há umas semanas comi um belo naco de carne com molho de mostarda.
Agora, estou a morrer, julgo. Já deixei de sentir fome e sede e não tenho força sequer para latir ou para tentar desprender-me da curtíssima corda que me prende. Há uma luz que brilha por cima de mim e com ela pessoas que passam, mas não sei se me vêem. Fazem umas caras esquisitas, mas nem me enxotam nem me dão carinhos. Ficam só ali, a olhar-me de longe e de vários ângulos. Ouço as suas conversas, falam de arte e do homem que aqui me deixou, Guillermo Vargas Habacuc. Dele só sei que me trouxe da rua a troco de um belo osso e que me amarrou com um foco de luz por cima. Dizem aqueles que por aqui passam que sou uma obra de arte e uma homenagem a Natividad Canda, um nicaraguense que morreu após o ataque de um cão rottweiler. Uma “representação da hipocrisia humana”, julgo ser assim que me chamam. Será este o meu nome? Hipocrisia humana, ora aí está um belo nome! Mas se o rottweiler atacou o homem, que tenho eu com isso? Será que prenderiam aqui um humano por outro ter atacado alguém? Cada vez mais me intrigam os humanos. Se calhar a seguir trazem para a galeria de arte um “pobrezinho” de África amarrado pelo pescoço e deixam-no aqui a morrer sob o foco de luz. Chamar-lhe-ão o quê a ele?
Sei que já não vou viver muito mais tempo, mas não vos condeno. Não condeno o meu dono que me abandonou, nem a vós que passaste na rua e não me acolheste, nem tão pouco ao homem que me deixou aqui à morte, nem a todos os que me viram morrer sob diversos ângulos e me deram o nome de representação da hipocrisia humana. Não vos condeno porque não sei o que isso é, nem teria vida para vos condenar a todos pelos maus-tratos que infligis constantemente a todos nós, os de quatro patas. Quanto a essa história da Arte, também não faço ideia do que seja, mas nesse ponto não creio que seja único.
Sabeis o que vos digo? Se reencarnar quero ser humano, apenas para perceber porque raio fui eu usado para representar algo que não faço a mínima ideia do que seja. Não poderiam simplesmente ter-me chamado Bobby e levado para casa? Vocês humanos têm a mania de complicar o simples e de simplificar o complexo. Não há cão que aguente!

* O “artista” da Costa Rica Guillermo Vargas Habacuc foi o protagonista, em 2007, de uma instalação “artística” que consistiu em deixar morrer à fome e à sede um cão. Disse o “artista”: “O importante para mim é a hipocrisia das pessoas: um animal converte-se em foco de atenção quando o coloco num lugar onde as pessoas vão ver arte, mas não quando está envolvido na morte de um homem”. Habacuc será um dos representantes do seu país na Bienal Centroamericana Honduras 2008. Na Internet corre uma petição (http://www.petitiononline.com/13031953/petition.html) para afastar o “artista” da prestigiada bienal. Neste preciso momento a petição conta com 1 671 573 assinaturas. 1 671 574.

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