Meter água… no deserto

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

David Marques

<b>1.</b> “Jarbas, pode mandar cancelar o Dakar” disse o excêntrico idiota ao mordomo carrancudo. E o Dakar foi cancelado, para gáudio de uns quantos terroristas, para gozo e facturação dos que rapidamente puseram a circular a camisola oficial do Dakar mais curto de sempre (entre o CCB e o Mosteiro dos Jerónimos) por meros 15 euros e para desilusão e prejuízo de muitos. Entre estes últimos encontram-se os muitos participantes amadores e respectivas equipas e amigos, os seus pequenos patrocinadores, os autarcas, os hoteleiros e os muitos milhares de fãs que já não vão poder saborear uma madrugada fria e lamacenta a ver passar os nossos heróis.
Eu confesso que sou admirador desta prova, no que ela tem de mais aventureiro e de teste aos limites físicos e psicológicos. Fascina-me descobrir a capacidade humana que se revela no enfrentar de uma prova tão exigente e competitiva, não só com os outros mas, e sobretudo, consigo próprio. Por outro lado, desencanta-me o crescente circo comercial que alimenta financeiramente a prova mas que a torna menos original e especial. Assim como me desagradam as opções politicamente correctas na maneira de lidar com os espectadores e de cedência ao artificial na definição das especiais europeias. Tratar os espectadores como crianças ou como um rebanho, como se pretendia, não me parece a melhor forma de contornar os problemas que sempre surgem nestas situações, mas tudo isso acaba por ser aceitável se tivermos em linha de conta que as etapas em Portugal são sobretudo de promoção e poderiam ser feitas num circuito fechado qualquer, desde que perto dos grandes centros urbanos (exigências do marketing). Para completar, depois de nos anos anteriores terem sido feitas as primeiras especiais no Baixo Alentejo e no Alentejo Litoral, ficamos agora a saber que para ir de Lisboa ao Algarve já nem é preciso passar pelo Alentejo (ups… lá estou eu outra vez, pá, Benavente também é Alentejo, esqueço-me sempre, que coisa esta…). Bom, de qualquer forma, esta primeira especial que se desenrolaria na zona de Alcochete deveria estar a agradar bastante a um ministro do nosso Governo. Imagino-o a dizer aos seus colaboradores: “Tão a ver: Dakar, travessia no deserto, Alcochete. Confere! Tinha razão ou não tinha, hã?”.
No meio desta situação toda, verificamos com alguma preocupação que a ameaça e o terror leva de vencida uma vez mais.

<b>2. </b>Terrorismo diferente, mas igualmente edificante, é aquele a que assistimos em torno da disputa da liderança do BCP. Assente em ameaças e em chantagens, este processo tem assumido um cariz eminentemente pedagógico no que diz respeito ao funcionamento de uma economia de mercado participada pelo Estado. Até há uns tempos atrás julgava que para se ter um banco era preciso ter um capital social de três milhões de contos e mais algumas condições. Neste momento, acredito que o processo não é tão exigente em termos de capital mas mais em termos de <i>curriculum</i>. Alguns anos em cargos de gestão pública, nomeada, e um cartão partidário, parecem ser os critérios chave para liderar um banco (veja-se o caso da CGD e dos dois candidatos à liderança do BCP). Falou-se tanto tempo na promiscuidade entre futebol e política, mas ganha cada vez mais relevo público a complexidade e diversidade da teia de promiscuidades – banca, grupos empresariais em geral, comunicação social, entre muitos outros. Tudo isto porque após o surgimento de suspeitas de menor transparência que se criam ao assistir às movimentações, existiu quem de forma desabrida e descomplexada apareceu publicamente a reivindicar o cumprimento duma “tradição democrática” de repartição de poderes entre partidos. Fino e interessante entendimento de democracia. Enfim, nada disto é de admirar numa sociedade que não reconhece ainda de forma generalizada as virtudes da escolha em função do mérito e que se satisfaz com arranjos de circunstância.
Por estas palavras, não me confundam com aqueles que rotulam os responsáveis políticos de ladrões nem que tudo se faz pelo “tacho”. Admiro e respeito todos aqueles que assumem responsabilidades de natureza política, porque entendo essa missão como difícil e de natural sacrifício. Não vou no barco dos que deitam abaixo todos os que ousam carregar o peso da responsabilidade, antes pelo contrário. Contudo, existem circunstâncias que de tão pouco claras alimentam a crítica cega e generalizada. Esta que acabei de descrever é um claro exemplo.

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