Merecíamos melhor!

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

João Espinho

Referi-me na minha anterior crónica ao facto de o actual executivo camarário bejense se ter furtado a fazer um balanço de dois anos de mandato. Curiosamente, dias depois, os jornalistas eram convidados para uma conferência de imprensa onde seria feito o tal balanço. Só que, por razões desconhecidas, a referida conferência foi cancelada e, em seu lugar, marcada uma outra, esta para apresentar o Orçamento e Opções do Plano da Câmara Municipal de Beja para 2008. Apesar de o documento ainda ter que ser objecto de discussão e aprovação na Assembleia Municipal, o actual executivo demonstrou, mais uma vez, a sua arrogância, desta vez com total desprezo pelos deputados municipais, onde se incluem os da mesma força política que gere a Câmara Municipal e que, seguramente, não se incomodam com este tipo de atitudes por parte dos seus camaradas no executivo. O centralismo democrático obriga a manter caladas as bocas e quem arriscar contrariar esta prática sabe que o caminho pode vir a ser o da expulsão, como aconteceu à deputada Luísa Mesquita.
Mas se o executivo se furtou ao balanço, já uma rádio local aproveitou a ocasião para, entrevistando o presidente da Câmara, poder fazer uma avaliação da obra feita e ouvir o que se pretende fazer nos próximos dois anos.
E o que se ouviu nessa entrevista?
Já o disse e volto a afirmar: há em Beja duas cidades distintas.
Há aquela onde nós vivemos, a que se desertifica, que perde centralidade, que vai perdendo qualidade de vida, uma cidade fechada, desinteressante, paralisada. A outra cidade é aquela que é vista pelos olhos de quem ocupa as cadeiras dos paços do concelho. Para estes, Beja é uma cidade cheia de projectos, em vias de dar o grande salto rumo ao futuro, uma cidade que se desenvolve e onde as pessoas estão felizes e vivem bem.
Foi esta cidade que Francisco Santos, presidente da Câmara, revelou na referida entrevista.
Projectos e mais projectos, a que se seguirão outros projectos, é a forma como se pode resumir o que nos espera nos próximos anos.
Questionado sobre o que já havia sido feito, o presidente da Câmara Municipal apresentou como grande obra a Casa Mortuária (sic!) e, como apoio ao ensino superior, a criação da Universidade Sénior (um espaço lúdico e nada mais do que isso). Perante estas grandiosas iniciativas camarárias, a oposição fica sem argumentos e incapaz de propor coisa melhor.
Mas o presidente disse ter feito muito mais: escreveu uma carta ao presidente da Região de Turismo Planície Dourada (RTPD) a questionar quais são as câmaras devedoras àquele organismo. Enquanto não receber resposta, a Câmara de Beja não contribui para a RTPD. Espera-se que idênticas cartas tenham sido enviadas à Associação de Municípios (AMBAAL), à AMALGA, à Assembleia Distrital, ao Conservatório Regional e a outras associações de que a Câmara de Beja faz parte e, enquanto não houver resposta ou houver outras câmaras devedoras, a de Beja suspenda os seus contributos. Falando claro: estivesse a RTPD na esfera do PCP certamente que as contribuições da autarquia bejense não faltariam.
Igualmente referida como obra, a RuralBeja 2007 faz parte do louros que a Câmara Municipal de Beja arrecada para si. Foi pena que não se tenha perguntado quanto custou aquele fiasco.
Depois ficámos a saber, pela boca de Francisco Santos, que Beja tem um plano estratégico para o desenvolvimento. Se tem, deve estar escondido nalguma gaveta pois aquilo que mais se percebe é que Beja não tem estratégia.
As questões culturais, na óptica <i>ex cathedra </i>do presidente da Câmara Municipal de Beja, resumem-se ao “presta” e “não presta”. Isto é, a <i>cultura </i>desenvolvida pela autarquia é que é boa, evidentemente. As actividades produzidas pelas empresas que não são apaniguadas, pelos agentes não reverentes, pelos artistas não situacionistas, essas não prestam. É óbvio que nenhuma Carta Cultural ou Conselho Municipal conseguirá inverter esta mentalidade provinciana, pois todos estarão subjugados ao subsídio – seja ele financeiro ou logístico. É por isso que Francisco Santos disse o que disse sobre o Festival do Amor. Incapaz de ver para além do espartilho ideológico em que tem transformado a<i> cultura </i>bejense, Francisco Santos não se coibiu de comentar o que desconhece. Mas ficámos a saber que Soror Mariana, aos olhos do nosso presidente de Câmara, é uma das figuras mais importantes da literatura portuguesa (sic!). Epíteto que, digo eu, a poderia alcandorar ao respectivo Prémio Nobel se a freira, para além de ter escrito as cinco cartas ao cavaleiro francês, tivesse relatado exaustivamente as suas experiências napoleónicas sob os lençóis de linho do seu leito. Talvez aí, em vez de amor romanesco e liturgicamente platónico, soubéssemos de poucas-vergonhas que tornariam sensaborão o tão “escandalosamente” erótico Festival do Amor.

<b>Outras novidades foram reveladas na entrevista radiofónica:</b>
– que o futuro Parque de Campismo será construído entre a Escola de Santiago Maior e as futuras instalações da ESTIG. Isto é, no meio de edificações e no sobrevivente pulmão urbano, sem acessibilidades e, o pior, sem uma ampla discussão pública sobre a futura localização deste equipamento turístico;
– que há a intenção de colocar uma cobertura em parte da piscina descoberta, destruindo-se, assim, uma obra ímpar na região e que, por desleixo/falta de vontade da autarquia, se tem vindo a deteriorar e a deixar de ser um verdadeiro espaço de lazer;
– que o Mercado Municipal tem os dias contados e que a culpa é das grandes superfícies;
– que o futuro pertence aos financiamentos europeus e deles depende o cumprimento do programa eleitoral da CDU; pelo que, se tudo não passar de projectos, a culpa será do Governo, da oposição, do senhor Luís Ameixa e sabe-se lá mais de quem.
A entrevista-balanço revelou muito de como, sem oposição ou contrariedades, se pode praticar o<b> quero, posso e mando</b>. Não se adivinha grande futuro para cidade e para a região, mas tudo passará despercebido, até porque este é um Município participado.
Os dois anos que passaram não foram bons e as perspectivas para os próximos dois são as piores.
Merecíamos melhor!

<p align=’right’><b><i>(crónica igualmente publicada em
<a href=´http://www.pracadarepublicaembeja.net´ target=´_blank´ class=´texto´>http://www.pracadarepublicaembeja.net</a> )</i></b></p>

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