Menos que zero em política cultural

Quinta-feira, 17 Setembro, 2020

António Revez

Vamos entrar em 2009, gordo ano eleitoral, a braços com uma deprimente avaliação do que foi o mandato autárquico bejense na área da cultura. Não me recordo de ser tão mau como está a ser. Olhamos para estes três anos de política cultural autárquica e estende-se um deserto sem fim. Parece que tudo falhou, parece que tudo ficou por cumprir, parece que nunca existiu um pelouro da cultura. É devastador. E é-o tanto mais na medida em que a cultura foi em mandados anteriores, e costuma sê-lo na gestão autárquica comunista, a “menina dos olhos” do executivo camarário. Mas neste mandato a cultura e a juventude foram os “parentes pobres” do investimento municipal. Nem houve investimento em ideias, iniciativas, projectos, estratégia, nem em verbas afectas às áreas referidas.
A Câmara Municipal de Beja extinguiu iniciativas emblemáticas como a Beja Alternativa ou o Além Rock, inicialmente sem justificação aparente, depois sob o pretexto de as substituir por um grande festival para a juventude, que nunca chegou a acontecer, e do qual nunca mais se ouviu falar. Esfumou-se com a mesma surpresa e com que foi, atabalhoadamente, anunciado. Areia para os olhos? Inépcia total?
O Festival do Amor só colheu o desprezo da autarquia, quando não a mentira e a intriga medíocre de um dos seus principais interlocutores e, desgraçadamente, rostos. E a Casa da Cultura foi praticamente votada ao abandono, expropriada de uma série de realizações que preenchiam um calendário cultural variado e intenso. Hoje, é uma sombra melancólica da actividade que já teve e reduz-se aos estafados ateliês e a ser palco de eventos pontuais e mal divulgados.
O cine-teatro Pax Julia nunca descolou de um ecletismo politicamente correcto e tem vindo a afundar-se numa programação desgarrada, incongruente e repetitiva. Mas mais não se pode exigir a um director impreparado, com um perfil desajustado ao cargo, estreito de vistas e de quem não se conhece um fôlego de singularidade nas escolhas ou um lampejo de inovação e criatividade na filosofia de programação, que lá se vai arrastando num triste minimal-repetitismo.
A Anibeja foi uma ideia generosa mas muito mal engendrada e risivelmente programada. Soluções e propostas de má qualidade e duvidosa oportunidade e pertinência, que mais pareciam inclusas só para preencherem o calendário estival da iniciativa.
E as grandes apostas estratégias do executivo para a área da cultura, a saber: o Conselho Municipal de Cultura e a Carta Cultural do concelho de Beja, revelaram-se anedoticamente fantasmagóricas. Traduzindo: em três demorados e bocejantes anos, os responsáveis camarários não conseguiram ainda pôr de pé e a funcionar o Conselho Municipal de Cultura, depois do tortuoso processo de elaboração do regulamento do mesmo, e quanto à Carta Cultural do concelho, considerada no programa eleitoral da CDU como o instrumento estratégico norteador da política cultural municipal, nem há notícia sequer de que esteja em gestação, ou de que esteja em qualquer estádio anticonceptivo. Pura e simplesmente ninguém fala, nada se sabe, e tudo permanece no mais ressonante vazio. Portanto, vamos entrar no último ano de mandato sem o documento que supostamente deveria ter guiado e balizado a política cultural do Município. Talvez essa lacuna ajude a explicar o naufrágio e o desnorte da acção autárquica.
As promessas goraram-se, a herança dissipou-se, e nada de novo se deu à luz. A cultura e a juventude foram pelouros virtuais deste executivo, e o desinvestimento foi-se consolidando, compreensivelmente, pois são escassos os votos e insignificante o retorno de popularidade que se obtêm com a prioridade dada a estas áreas. De qualquer modo, 2009 está quase à porta, e, mesmo sob a guilhotina da crise, ao menos, algum folclore e fogo-de-artifício há-de sobrar, para nos convencermos que o vazio e o falhanço não foram absolutos e que o circo ainda anima a malta.
Talvez 2009 seja ano de viragem nas grandes opções autárquicas para a cultura e juventude, é o que se deseja, continue ou não o executivo com a cor partidária que o dirige. Mas quem vier de novo, ou recauchutado, ou retocado, que dê um forte pontapé no marasmo e pobreza que tem sido a política cultural aqui no burgo.

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